quinta-feira, 18 de julho de 2013


VIOLÊNCIA - NECESSIDADE DE UMA ABORDAGEM FILOSÓFICO-CIENTÍFICA
                              
                                
                                                                              Caim mata Abel

 

INTRODUÇÃO

 

              O primeiro grande exemplo que possuímos sobre a eclosão de uma atitude  violenta  entre seres humanos, sem que houvesse  para tanto o precedente de uma animosidade entre eles, nos é narrado  na Bíblia Cristã (Gênesis, 4.3-15). Já de início,  podemos obter dessa narrativa uma indicação de duas de suas  características quando de sua materialização: a fúria (versículo 6), e a capacidade de dominá-la (versículo 7), como fatores endógenos do indivíduo,  antes da prática do  ato externo. Esse ato externo é que é entendido, ali, como o pecado, ou seja, ação moralmente reprovável. Senão, vejamos:

6 O Senhor disse a Caim: "Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu ros­to?

7 Se você fizer o bem, não será aceito? Mas, se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo”.


                Não vou entrar, neste artigo, em discussões que não vêm ao caso, sobre a veracidade ou não do episódio — muitas pessoas há que professam outras religiões, outras que são céticas ou ateias, e outras não adeptas da teoria do criacionismo, as quais poderiam contrapor-se a mim, alegando princípios de fé. A verdade é que, sendo ou não adepto da teologia religiosa que adota os princípios judaico-cristãos, ninguém pode negar que essa narrativa é um exemplo clássico e muito elucidativo que nos informa haver, no ser humano, condições endógenas da atividade violenta, cujos mecanismos são detonados a partir de um fator externo e, ainda, que ela pode se direcionar a qualquer indivíduo, mesmo não tendo ele praticado nenhum ato que justifique ele se tornar vítima da mesma. E, por outro lado, esclarece o que a ciência tem comprovado : não é especificamente  a vida em sociedade o principal detonador  das condições  propícias à sua materialização.

                 Não nos foi indicado, na narrativa bíblica, se Abel teria também sido tomado de fúria e investido contra o seu irmão, se a escolha de Deus fosse  ao contrário. Adiantando-me a uma resposta positiva sua, prezado leitor, acresço que ele poderia, por hipótese, ter materializado ou não um intento violento. Por uma construção filosófica, entendo que os dois irmãos, sendo membros da mesma espécie assim criada por um único Criador, deveriam ter  as mesmas capacidades, em maior ou menor intensidade, bem como outras semelhanças endógenas, e, sendo assim, era capaz de dominar, também, uma vontade de praticar uma atitude negativa .

                   O versículo 7 acima transcrito é o que nos informa,  na fala do Criador, que  a materialização da violência é que se constitui em “pecado”,  e, não, as dúvidas e conflitos internos que se passam  na consciência individual. Portanto, a exteriorização da negatividade através da ação violenta caracteriza a atividade moralmente reprovável, capaz de  macular a honra individual do seu comitente. Entra, aí, o conceito de moral subjetiva transformando-se em moral objetiva, quando a primeira precede a segunda (de acordo com o entendimento a partir de Hegel), ou da já preexistência na constituição imaterial do ser humano da noção da moral objetiva, a se exteriorizar passo a passo (segundo uma conceituação através de Kant)  demonstrada, na narrativa bíblica, pela informação de Caim  já entender quando um ato é  moralmente reprovável, antes mesmo de praticá-lo,  tanto assim que tem a capacidade de dominar-se em razão dessa reprovabilidade .

                    Sob qualquer ângulo que a analisemos, de qualquer forma, a fala de Deus nos comunica a existência de um livre arbítrio humano na escolha moral e que essa escolha deve ser realizada de acordo com a moral objetiva, sob  pena de reprovabilidade social. Por essa razão, como Juiz, não condenou à morte Caim, pois o pecado e, mesmo, a criminalidade, não são males que possam ser extirpados com a morte do pecador, mas através da reprovabilidade social  que incide sobre o autor pela sua prática, tanto assim que Caim ficou marcado — para que todos quantos o vissem  repudiassem a sua conduta , conduta humana essa que por todos devia ser evitada. Não foi Caim  que ficou repudiado, tanto assim que viveu em sociedade e até fundou uma cidade, tendo outros filhos, e numerosa descendência.

 
AGRESSIVIDADE E VIOLÊNCIA

 
                  Ainda trazendo a narrativa de Caim e Abel, e explorando, “à voil d’oiseau”, a noção de personalidade humana, invocando o ensinamento do genial criador da Psicologia Analítica, Gustav Jung, lembramos que cada indivíduo não é um livro em branco, desde seu nascimento já trazendo em si, algumas páginas escritas, traduzidas em características guardadas em seu inconsciente pessoal, que lhe possibilitam ir  desenvolvendo atitudes  perante a sua vida, na rota de sua evolução pessoal. Tanto assim que Caim era um criador de ovelhas, um pecuarista, enquanto, Abel era um agricultor (representando, cada um, uma das duas atividades iniciais do ser humano, segundo os estudos da nossa pré-história) o que inferimos das oferendas feitas ao seu Deus. E ouso, aqui, indagar se essa atividade de Caim não seria mesmo ocorrência de suas habilidades inatas como páginas escritas já desde o seu nascimento, o que lhe teria trazido também  o hábito de matar os animais – e que talvez esse mesmo hábito de eliminar-lhes a vida  é que lhe permitiu desenvolver uma visão permissiva de fazê-lo também com um ser humano. A oferta das partes gordas das ovelhas nos dá a certeza de ser ele mesmo o  executor  da morte dos animais, pois  os seres existentes, na história de que fazem parte, eram apenas quatro : seus pais Adão e Eva e  seu irmão, Abel .

                   E, ainda me amparando em Jung, após esse raciocínio, concluo que a atitude de Deus, ao mandar Caim vagar entre as outras sociedades existentes, com a marca da reprovabilidade de seu ato, teria sido a forma adequada a que, no inconsciente coletivo, fosse, gradativamente, sendo apagada essa atividade reprovável. Assim, está indicado que o arquétipo do assassino deveria ser extirpado do inconsciente  do ser humano, nas próximas gerações e isso deveria se dar pela reprovabilidade social  — até por isso mesmo entendo ter havido a ordem do Criador para que ele vivesse e fosse se apresentar, marcado, perante as outras sociedades . Tanto assim é que  os seus descendentes  não apresentaram essa características de Caim— cite-se, por oportuno, que  Enoque, um dos seus filhos,  era um santo homem, que subiu aos céus por suas virtudes e é comparado a Elias, o grande santo Profeta do Antigo Testamento.

                   Se tomarmos, apesar de tudo,  a narrativa bíblica como uma alegoria, eis que muitas  verdades ali são ditas sob forma de parábolas, temos a conclusão de que:

                 há características humanas  que podem ser deturpadas, como, no caso em análise, a agressividade, utilizada negativamente, direcionando-se a alvos indeterminados , por força de emoções negativas ,  as quais, por força de evolução individual e coletiva da espécie,  devem ser redirecionadas  a atividades positivas, capazes  de elevar o homem a um ser moralmente (de forma subjetiva e objetiva) elevado;

                — e que esse redirecionamento  pode ser obtido mediante  as experiências de sua vida – e, nesse ponto, chamo à colação  a  teoria do behaviorismo  ou  comportamentismo,  defendida principalmente por Pavlov. 

               Atualmente, com o desenvolvimento da escola do Neobehaviorismo, defendido principalmente por Hull e Spencer, uma corrente moderna do behaviorismo, é enfatizado que o comportamento humano deve ser estudado  para se extrair do indivíduo, caso a caso, sua objetividade ideal através da análise dos estímulos e das respostas, conduzidas através de um mediador. Esse mediador seria, essencialmente, uma relação entre dois ou mais neurônios, do mesmo indivíduo analisado, relação essa que desencadearia, em cada evento, por estímulos externos ou internos, as reações externadas. A diferença para o behaviorismo é que este  enfatizava sua análise em reflexos condicionados, isto é, não  levava em consideração  essas relações neuronais a mediar estímulos e respostas. A introdução desse mediador é que  faz com que estímulos idênticos possam , no mesmo indivíduo, mas em ocasiões diversas, realizar  diversas respostas, bem como, na mesma ocasião, em indivíduos diversos.

              Talvez, levando em consideração essas proposições do Neobehaviorismo, deixando de lado por alguns instantes o conceito de moral subjetiva e objetiva, possamos penetrar um pouco nas explicações da ciência psicológica e colocar a seguinte hipótese: Abel, mesmo tendo sido criado em igualdades de condições pelos pais, optou  por ser agricultor, enquanto Caim o fez pela pecuária, já apor condições próprias com que nasceram. Isso não quer dizer, contudo, que a pecuária foi a causa da sua violência, mas,  sim,  que as relações  neuronais , decorrentes de sua habitualidade em lidar com  a morte (seria o instinto de Thanatus), impulsionadas pela emoção negativa da inveja, o tenham levado  a  desconsiderar seu irmão, da mesma espécie, como um  ser intangível – se houvesse uma outra relação mediadora neuronal, que não implicasse em  contaminação por emoção, talvez ele tivesse conseguido  controlar o seu ato assassino (mas não tinha havido nele a evolução suficiente para tanto).

              Como Abel morreu e não deixou descendência, pode-se concluir filosoficamente, por outro lado, que ele já fosse o ser humano perfeito e não necessitasse mais de evolução e, por isso, não deixou descendência — talvez a aceitação mesma da sua oferenda tenha sido  o sinal dessa evolução total, que não mais encontramos nos seres da nossa espécie.


CONCLUSÃO

             Não posso deixar, ao final deste artigo, de invocar o sábio ensinamento de Sigmund Freud, que tão bem definiu a agressividade como  um instinto humano (irracional),necessário, por ser ele um animal (embora racional), para a sobrevivência. É, para ele, o instinto de vida, ou Eros, em oposição ao instinto de morte, ou Thanatus (pulsão da morte).

             A violência não é um sinônimo de agressividade. Em uma acepção psicanalítica, ela se apresenta como a consequência  de um desvio da agressividade como instinto,  quando essa fica descontrolada  em um indivíduo enfermo neurologicamente, que o leva a praticar atos, em decorrência dessa enfermidade,  sem que tenha havido um estímulo real de ameaça à incolumidade do ser. E, em outra acepção, embora o indivíduo não esteja neurológica ou psiquicamente enfermo, a violência é uma decorrência de suas  emoções negativas,  ao mesmo tempo que tem a capacidade de controla-las, mas é levado a praticar um mal físico ou psíquico a outrem em decorrência da vontade de ferir aquela pessoa.

             Voltando-se ao exemplo de Caim, o ato de matar as ovelhas, sacrificial ou não (a narrativa bíblica não nos diz que a morte das mesmas foi sacrificial, tão só que foi feita uma oferenda das partes gordas das mesmas), pode  ser entendido como uma condição necessária à preservação de sua vida, pela alimentação, já que ele  era carnívoro e necessitava alimentar-se. E, assim, estaria se utilizando de uma agressividade como instinto (ato irracional de preservação de vida). Já a morte praticada contra o irmão, decorrente de um ato racional do desejo de feri-lo e retirá-lo definitivamente de seu caminho, não foi impulsionado  por necessidade de vida, mas  por uma necessidade de  satisfazer emoções negativas (inveja),  que ele tinha condições de dominar, como nos é  relatado pela Divindade.

              Entendo, também, não se poder afirmar que Caim matasse as ovelhas apenas por instinto de conservação — essa  dúvida se coloca pelas razões que levaram o Criador a não aceitar  a oferenda das suas partes gordas. Ele poderia perfeitamente tê-las aceito, se visse nisso alguma coisa natural do ser que criara. Já que Ele conhecia bem a natureza da Sua criatura, poderá ter antevisto alguma coisa nesse comportamento que pudesse prejudicar a própria evolução da espécie (a partir da expulsão do casal de pais do Paraíso) e não desejou incentivar essa atividade. A Sua recusa foi uma admoestação. E Caim não gostou dela e despejou sua raiva no ser inocente que estava ao seu alcance, já que a Deidade, por si, é inatingível – a inveja não admite comparações.  De qualquer forma, ficou comprovado, com o assassinato do seu irmão, que Caim possuía, sim, uma deturpação da agressividade como instinto de vida, e a utilizava como ocorrência de negatividade no direcionamento de suas escolhas morais, traduzida na violência.  Além do mais, apesar de ter sido  esclarecido de que podia dominar essa violência, optou por não fazê-lo, para satisfazer seu desejo.

               Em conclusão,  vale dizer que há uma diferença de princípios e finalidades entre a agressividade (instinto-irracional) e a violência (vontade-racional) e, não, de intensidade.
 

               

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário