Caim mata Abel
INTRODUÇÃO
O primeiro grande exemplo que possuímos sobre a eclosão
de uma atitude violenta entre seres humanos, sem que houvesse para tanto o precedente de uma animosidade
entre eles, nos é narrado na Bíblia Cristã
(Gênesis, 4.3-15). Já de início, podemos
obter dessa narrativa uma indicação de duas de suas características quando de sua materialização:
a fúria (versículo 6), e a capacidade de dominá-la (versículo 7), como fatores
endógenos do indivíduo, antes da prática
do ato externo. Esse ato externo é que é
entendido, ali, como o pecado, ou seja, ação moralmente reprovável. Senão, vejamos:
6 O Senhor disse a Caim: "Por que você
está furioso? Por que se transtornou o seu rosto?
7 Se você fizer o bem, não será aceito? Mas, se não
o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas
você deve dominá-lo”.
Não vou entrar, neste artigo, em discussões
que não vêm ao caso, sobre a veracidade ou não do episódio — muitas pessoas há
que professam outras religiões, outras que são céticas ou ateias, e outras não
adeptas da teoria do criacionismo, as quais poderiam contrapor-se a mim,
alegando princípios de fé. A verdade é que, sendo ou não adepto da teologia
religiosa que adota os princípios judaico-cristãos, ninguém pode negar que essa
narrativa é um exemplo clássico e muito elucidativo que nos informa haver, no
ser humano, condições endógenas da atividade violenta, cujos mecanismos são
detonados a partir de um fator externo e, ainda, que ela pode se direcionar a
qualquer indivíduo, mesmo não tendo ele praticado nenhum ato que justifique ele
se tornar vítima da mesma. E, por outro lado, esclarece o que a ciência tem comprovado
: não é especificamente a vida em
sociedade o principal detonador das
condições propícias à sua
materialização.
Não
nos foi indicado, na narrativa bíblica, se Abel teria também sido tomado de
fúria e investido contra o seu irmão, se a escolha de Deus fosse ao contrário. Adiantando-me a uma resposta
positiva sua, prezado leitor, acresço que ele poderia, por hipótese, ter
materializado ou não um intento violento. Por uma construção filosófica,
entendo que os dois irmãos, sendo membros da mesma espécie assim criada por um
único Criador, deveriam ter as mesmas
capacidades, em maior ou menor intensidade, bem como outras semelhanças
endógenas, e, sendo assim, era capaz de dominar, também, uma vontade de
praticar uma atitude negativa .
O
versículo 7 acima transcrito é o que nos informa, na fala do Criador, que a materialização da violência é que se
constitui em “pecado”, e, não, as
dúvidas e conflitos internos que se passam
na consciência individual. Portanto, a exteriorização da negatividade
através da ação violenta caracteriza a atividade moralmente reprovável, capaz
de macular a honra individual do seu
comitente. Entra, aí, o conceito de moral subjetiva transformando-se em moral
objetiva, quando a primeira precede a segunda (de acordo com o entendimento a
partir de Hegel), ou da já preexistência
na constituição imaterial do ser humano da noção da moral objetiva, a se
exteriorizar passo a passo (segundo uma conceituação através de Kant) demonstrada, na narrativa bíblica, pela
informação de Caim já entender quando um
ato é moralmente reprovável, antes mesmo
de praticá-lo, tanto assim que tem a
capacidade de dominar-se em razão dessa reprovabilidade .
Sob
qualquer ângulo que a analisemos, de qualquer forma, a fala de Deus nos
comunica a existência de um livre arbítrio humano na escolha moral e que essa
escolha deve ser realizada de acordo com a moral objetiva, sob pena de reprovabilidade social. Por essa
razão, como Juiz, não condenou à morte Caim, pois o pecado e, mesmo, a
criminalidade, não são males que possam ser extirpados com a morte do pecador,
mas através da reprovabilidade social que incide sobre o autor pela sua prática,
tanto assim que Caim ficou marcado — para que todos quantos o vissem repudiassem a sua conduta , conduta humana
essa que por todos devia ser evitada. Não foi Caim que ficou repudiado, tanto assim que viveu em
sociedade e até fundou uma cidade, tendo outros filhos, e numerosa descendência.
AGRESSIVIDADE E VIOLÊNCIA
Ainda
trazendo a narrativa de Caim e Abel, e explorando, “à voil d’oiseau”, a noção de personalidade humana, invocando o
ensinamento do genial criador da Psicologia Analítica, Gustav Jung, lembramos que cada indivíduo não é um livro em branco,
desde seu nascimento já trazendo em si, algumas páginas escritas, traduzidas em
características guardadas em seu inconsciente pessoal, que lhe possibilitam ir desenvolvendo atitudes perante a sua vida, na rota de sua evolução
pessoal. Tanto assim que Caim era um criador de ovelhas, um pecuarista, enquanto,
Abel era um agricultor (representando, cada um, uma das duas atividades
iniciais do ser humano, segundo os estudos da nossa pré-história) o que inferimos
das oferendas feitas ao seu Deus. E ouso, aqui, indagar se essa atividade de
Caim não seria mesmo ocorrência de suas habilidades inatas como páginas escritas
já desde o seu nascimento, o que lhe teria trazido também o hábito de matar os animais – e que talvez
esse mesmo hábito de eliminar-lhes a vida é que lhe permitiu desenvolver uma visão permissiva
de fazê-lo também com um ser humano. A oferta das partes gordas das ovelhas nos
dá a certeza de ser ele mesmo o executor da morte dos animais, pois os seres existentes, na história de que fazem
parte, eram apenas quatro : seus pais Adão e Eva e seu irmão, Abel .
E, ainda me amparando em Jung, após esse raciocínio, concluo que
a atitude de Deus, ao mandar Caim vagar entre as outras sociedades existentes,
com a marca da reprovabilidade de seu ato, teria sido a forma adequada a que,
no inconsciente coletivo, fosse, gradativamente, sendo apagada essa atividade
reprovável. Assim, está indicado que o arquétipo do assassino deveria ser extirpado
do inconsciente do ser humano, nas próximas
gerações e isso deveria se dar pela reprovabilidade social — até por isso mesmo entendo ter havido a
ordem do Criador para que ele vivesse e fosse se apresentar, marcado, perante
as outras sociedades . Tanto assim é que
os seus descendentes não
apresentaram essa características de Caim— cite-se, por oportuno, que Enoque, um dos seus filhos, era um santo homem, que subiu aos céus por
suas virtudes e é comparado a Elias, o grande santo Profeta do Antigo
Testamento.
Se tomarmos, apesar de tudo, a
narrativa bíblica como uma alegoria, eis que muitas verdades ali são ditas sob forma de
parábolas, temos a conclusão de que:
— há características humanas que podem ser deturpadas, como, no caso em
análise, a agressividade, utilizada negativamente, direcionando-se a alvos
indeterminados , por força de emoções negativas , as
quais, por força de evolução individual e coletiva da espécie, devem ser redirecionadas a atividades positivas, capazes de elevar o homem a um ser moralmente (de
forma subjetiva e objetiva) elevado;
— e que esse redirecionamento pode
ser obtido mediante as experiências de
sua vida – e, nesse ponto, chamo à colação
a teoria
do behaviorismo ou comportamentismo, defendida principalmente por Pavlov.
Atualmente,
com o desenvolvimento da escola do Neobehaviorismo,
defendido principalmente por Hull e Spencer, uma corrente moderna do
behaviorismo, é enfatizado que o comportamento humano deve ser estudado para se extrair do indivíduo, caso a caso, sua
objetividade ideal através da análise dos estímulos e das respostas, conduzidas
através de um mediador. Esse mediador seria, essencialmente, uma relação entre
dois ou mais neurônios, do mesmo indivíduo analisado, relação essa que
desencadearia, em cada evento, por estímulos externos ou internos, as reações externadas.
A diferença para o behaviorismo é que este enfatizava sua análise em reflexos
condicionados, isto é, não levava em
consideração essas relações neuronais a
mediar estímulos e respostas. A introdução desse mediador é que faz com que estímulos idênticos possam , no
mesmo indivíduo, mas em ocasiões diversas, realizar diversas respostas, bem como, na mesma
ocasião, em indivíduos diversos.
Talvez,
levando em consideração essas proposições do Neobehaviorismo, deixando de lado
por alguns instantes o conceito de moral subjetiva e objetiva, possamos
penetrar um pouco nas explicações da ciência psicológica e colocar a seguinte hipótese:
Abel, mesmo tendo sido criado em igualdades de condições pelos pais, optou por ser agricultor, enquanto Caim o fez pela
pecuária, já apor condições próprias com que nasceram. Isso não quer dizer,
contudo, que a pecuária foi a causa da sua violência, mas, sim, que as relações neuronais , decorrentes de sua habitualidade
em lidar com a morte (seria o instinto
de Thanatus), impulsionadas pela emoção negativa da inveja, o tenham levado a
desconsiderar seu irmão, da mesma espécie, como um ser intangível – se houvesse uma outra relação
mediadora neuronal, que não implicasse em
contaminação por emoção, talvez ele tivesse conseguido controlar o seu ato assassino (mas não tinha
havido nele a evolução suficiente para tanto).
Como Abel morreu e não deixou descendência,
pode-se concluir filosoficamente, por outro lado, que ele já fosse o ser humano
perfeito e não necessitasse mais de evolução e, por isso, não deixou
descendência — talvez a aceitação mesma da sua oferenda tenha sido o sinal dessa evolução total, que não mais
encontramos nos seres da nossa espécie.
CONCLUSÃO
Não posso deixar, ao final deste artigo, de invocar
o sábio ensinamento de Sigmund Freud, que
tão bem definiu a agressividade como um instinto humano (irracional),necessário,
por ser ele um animal (embora racional), para a sobrevivência. É, para ele,
o instinto
de vida, ou Eros, em oposição
ao instinto de morte, ou Thanatus (pulsão
da morte).
A violência não é um sinônimo
de agressividade. Em uma acepção psicanalítica, ela se apresenta como a
consequência de um desvio da
agressividade como instinto, quando essa
fica descontrolada em um indivíduo
enfermo neurologicamente, que o leva a praticar atos, em decorrência dessa
enfermidade, sem que tenha havido um
estímulo real de ameaça à incolumidade do ser. E, em outra acepção, embora o
indivíduo não esteja neurológica ou psiquicamente enfermo, a violência é uma
decorrência de suas emoções negativas, ao mesmo tempo que tem a capacidade de controla-las,
mas é levado a praticar um mal físico ou psíquico a outrem em decorrência da
vontade de ferir aquela pessoa.
Voltando-se
ao exemplo de Caim, o ato de matar as ovelhas, sacrificial ou não (a narrativa
bíblica não nos diz que a morte das mesmas foi sacrificial, tão só que foi
feita uma oferenda das partes gordas das mesmas), pode ser entendido como uma condição necessária à
preservação de sua vida, pela alimentação, já que ele era carnívoro e necessitava alimentar-se. E,
assim, estaria se utilizando de uma agressividade como instinto (ato irracional
de preservação de vida). Já a morte praticada contra o irmão, decorrente de um
ato racional do desejo de feri-lo e retirá-lo definitivamente de seu caminho, não
foi impulsionado por necessidade de
vida, mas por uma necessidade de satisfazer emoções negativas (inveja), que ele tinha condições de dominar, como nos
é relatado pela Divindade.
Entendo,
também, não se poder afirmar que Caim matasse as ovelhas apenas por instinto de
conservação — essa dúvida se coloca pelas
razões que levaram o Criador a não aceitar
a oferenda das suas partes gordas. Ele poderia perfeitamente tê-las
aceito, se visse nisso alguma coisa natural do ser que criara. Já que Ele
conhecia bem a natureza da Sua criatura, poderá ter antevisto alguma coisa
nesse comportamento que pudesse prejudicar a própria evolução da espécie (a
partir da expulsão do casal de pais do Paraíso) e não desejou incentivar essa
atividade. A Sua recusa foi uma admoestação. E Caim não gostou dela e despejou
sua raiva no ser inocente que estava ao seu alcance, já que a Deidade, por si,
é inatingível – a inveja não admite comparações. De qualquer forma, ficou comprovado, com o
assassinato do seu irmão, que Caim possuía, sim, uma deturpação da
agressividade como instinto de vida, e a utilizava como ocorrência de
negatividade no direcionamento de suas escolhas morais, traduzida na violência. Além do mais, apesar de ter sido esclarecido de que podia dominar essa
violência, optou por não fazê-lo, para satisfazer seu desejo.
Em conclusão, vale dizer que há uma diferença de princípios
e finalidades entre a agressividade (instinto-irracional) e a violência (vontade-racional)
e, não, de intensidade.
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