O BRASIL E A DEMOCRACIA PARTICIPATIVA
Introdução
A DEMOCRACIA é, em síntese, um regime
de governo em que o poder se exerce pelo povo, e convive harmoniosamente com o
sistema presidencialista, parlamentarista, monárquico constitucional e
republicano. Perpetuou-se através dos tempos por ser o mais justo e adequado
meio de fazer evoluir a sociedade humana, mediante a divisão igualitária de
bens e trabalho.
Em
todo o período de sua existência, desde o século VI A.C., em Atenas, na Antiga
Grécia (sendo Clístenes, Sólon e Péricles seus principais artífices), e,
modernamente, a partir do século XVIII, após as revoluções burguesas iniciadas
no Velho Continente, as suas
modificações foram apenas de caráter
executivo da forma de tomada de decisões políticas importantes para a coletividade – inicialmente exercida diretamente pelo povo
reunido em Bulés (ou Assembleias dos Quinhentos), na praça pública, a Ágora, e,
depois, com a representatividade
popular, por sufrágio universal (exercício através de mandatários eleitos espeficamente
para essa finalidade). Finalmente, agora,
desdobra-se no exercício concomitante da representatividade e da atividade
direta da coletividade.
Destarte, entende-se
haver três modalidades de Democracia: a Democracia Direta ou Pura, a Democracia Indireta
ou Representativa, e a Democracia Participativa ou Deliberativa,
que podemos entender como Mista.
A Utopia Participativa torna-se
realidade
A
corrupção pessoal está aumentando em todos os Estados Modernos – a questão é
apenas de grau de intensidade – até porque os próprios órgãos públicos
encarregados da fiscalização e punição dos políticos somente têm notícia dos
atos desviantes de conduta política quando já é muito tarde para corrigi-los,
através das agências estatais administrativas e judiciárias. E os componentes dos
órgãos estatais, por sua vez, não estão preparados para o repentino estado de
desagregação de valores e padrões das classes políticas do mundo moderno,
alastrada em todos os níveis das Federações ou Estados Unitários.
A
máquina do Estado Moderno, constituída por três poderes independentes e harmônicos
entre si, fiscalizando-se e contendo-se mutuamente dentro de suas funções
através de sistema de freios e contrapesos, segue a doutrina de
Montesquieu. Os freios e contrapesos inicialmente idealizados o foram para as
sociedades de então, necessitando serem revistos, aumentados ou modificados,
para poderem atuar com eficácia em nossa modernidade — agora, com a
complexidade e excesso de burocratização na máquina estatal, generalizadamente,
apenas os inicialmente idealizados não são suficientes, necessitando-se de
outros a serem acrescidos para fazer face à nova realidade sócio-política.
Acresça-se, ainda, a tudo isso, as dificuldades de fiscalização e apuração de
atos desviantes, que são da responsabilidade dessa mesma máquina assim
analisada, que não possui a celeridade suficiente para a detecção e correção
das atividades do corruptor (corrupção ativa) e do corrompido (corrupção
passiva).
Aproveitando-se dessa fragilidade na condução
da administração do Estado, assim como o fazem aqueles que almejam transpor os
muros protetores de um castelo, as relações entre estes dois tipos de agentes,
o corruptor e o corrompido, vão cada vez mais se entrelaçando e fortalecendo. E, por fim, tecendo uma imensa teia de proteção
mútua, capaz de fazê-los escalar as defesas estatais — e faltando aos guardiões
do bem público o devido equipamento e a permanente atenção a essa crescente
atividade desconstrutiva da ordem social —, insidiosamente vão-se alastrando no
silêncio dos negócios escondidos.
Mas
eis que surge um fato novo, que surpreende a quase todos: a reação da
sociedade, utilizando-se do direito político expresso ou não em Constituições (na
nossa, expressamente): o povo, a partir da iniciativa dos jovens, une-se nas
ruas, nas praças, a partir de casebres e mansões, para atuar diretamente sua cidadania.
Cantando hinos de paz, e apresentando reivindicações dos direitos fundamentais
do homem na sociedade, chamam os administradores do Estado, em todos os seus níveis
e áreas de atuação, a lhes prestarem contas das ocorrências e tomarem, em
conjunto com ele, as necessárias medidas para colocar um fim a essa situação: é a
Democracia Participativa dando os seus primeiros passos para passar de um sonho
(a Utopia), para a realidade.
O
ser humano não perdeu, pois, como suspeitavam muitos, dentre os quais eu mesma
(em alguns momentos), a sua natureza de “animal político”. Esses movimentos populares, por serem globais,
referem-se à natureza humana em si e não característica de uma ou outra
nacionalidade.
Foi
a intrincada e confusa situação das relações, nas sociedades do Mundo Moderno, que levou a maior parte das
pessoas, inclusive os sujeitos ativos e passivos da atividade corruptora, a
suspeitar da passividade do Homo sapiens em
nossos dias e perda dessa faculdade dos animais racionais sociais, a capacidade
de modificar o status quo não favorável a sua
subsistência como coletividade.
As relações sociais, a partir da revolução
industrial e da globalização, perderam a simplicidade e passaram a sufocar o
indivíduo, que ficou estático de perplexidade diante de uma situação
aparentemente fora do seu controle. E, a partir dessa sensação de sufoco mental
e material, de repente, em um primeiro momento, ele se deu conta de que, como
cidadão, sem capacidade de atuação, está relegado ao estado de mero expectador
e de vítima desse próprio governo que ajudou a instalar, totalmente segregado
das decisões importantes para si e para a coletividade. Essa situação
esmagadora da natureza social humana trouxe consigo, como era de se prever, já
em um segundo momento, a indignação crescente dos indivíduos. E esta indignação
é que, cedo ou tarde, tenderia a leva-los, conjuntamente, a uma reação, vez que
os mecanismos naturais humanos de agressividade, como instinto se sobrevivência
da espécie, seriam acionados.
Tudo isso não deixa de ser uma ocorrência
natural, se bem que não percebida no seu passo a passo. Se a agressividade natural
humana, que é própria de todo animal, para prover sua subsistência, é
canalizada para um lado negativo, suas consequências não se podem prever,
principalmente quando ela se reúne em acontecimentos de massa. Ou, se positiva,
tende a uma melhora institucional e à paz social. Nesse último caso, ela opera
a defesa da integridade social, através de conglomerados pacíficos, mas
atuantes, para reclamar dos poderes políticos a execução ética da
representatividade em benefício do interesse comum. Utilizando-se o exemplo da Natureza,
deve-se entender o tempo decorrido entre o início da indignação e a tomada de
uma dessas duas posições, como algo semelhante ao recuo do mar, acumulando
energia para o desabrochar de uma “tsunami”. E uma vez iniciada a onda, ela não
tem volta.
Democracia Participativa no Brasil
O
movimento brasileiro do povo nas ruas não é outra coisa senão a implantação da Democracia
Participativa ou Deliberativa, facilitada, agora, pelo grande
desenvolvimento das Redes Sociais na Internet, que substituem, com o ar
evolutivo da modernidade, as antigas Bulés da praça pública de Atenas. E,
vejam-se as semelhanças: é uma rede gratuita e libertária de informações e
trocas de ideias participativas da cidadania, pública, rápida e capaz de
congregar, quase de imediato ao surgimento do fato, toda a força social
necessária ao estabelecimento, acompanhamento, fiscalização e, em caso
necessário, destituição, com retomada da representatividade, dos políticos que
não estiverem executando suas funções, por inépcia ou corrupção (o que é chamado
de “recall”,
pelos nossos técnicos). E a Antiga Ágora é, agora, o conjunto de ruas, avenidas
e praças públicas, já que o grande contingente populacional não cabe em apenas um desses locais.
O
povo, nas ruas e praças brasileiras, não está pedindo nada aos políticos, pois
ele é o mandante: ao colocar suas pretensões perante os políticos, o mandante
não peticiona, mas exerce o seu poder de determinar o que lhe convém ou não,
como é da essência do próprio instituto da representatividade. O povo está,
pois, apenas exercendo um direito seu de representado, o de tomar as contas do
seu representante. Nem tampouco está desejando destituí-los — trata-se, isto
sim, do necessário diálogo, há muito interrompido, para prosseguimento das
atividades político-sociais adequadas ao País. É um movimento pacífico, é a voz
que anuncia, com a tranquilidade de quem tem o direito de fazê-lo, o seguinte:
Está retomado o debate
público entre cidadãos livres e em condições igualitárias de participação e
seus representantes, com o fundamento de nossa Constituição Federal, no seu
art. 1º., parágrafo único (“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”). E, se para tanto, for necessário um
reordenamento da máquina executora das políticas em forma tradicional, já
bastante desgastada, este há de ser feito: pela própria vontade popular, cabendo
aos seus atuais representantes a responsabilidade de zelar para que essa
mudança se dê de maneira eficaz e com legitimidade.
O
primeiro passo para a implantação da
Democracia Participativa no Brasil já foi dado. Esperemos que os políticos,
atualmente detendo o poder de representação, consigam elementos para levar a
efeito as mudanças necessárias:
b) pelo atendimento,
de imediato, à mais urgente reivindicação já levada às ruas, pois não depende
de lei ou decreto, mas, e tão somente, da vontade de cada indivíduo componente
da máquina estatal e de determinação
gerencial : transparência
administrativa e combate à corrupção;
Todas as iniciativas que
forem levadas a efeito, com o fito de impedir uma quebra de continuidade nesse
movimento, rumo à Democracia Participativa, do elevado teor de civismo, ética e
idealismo, tão bem iniciado e executado pelo nosso jovem, é bem-vindo e capaz de guindar o nosso País ao lugar de
destaque que merece no cenário mundial e
para dar garantias de paz e
tranquilidade a toda a sociedade brasileira.

Nenhum comentário:
Postar um comentário