O ESTADO MODERNO E A
SOMBRA DO LEVIATÃ
Este é o Estado Leviatã, segundo a idealização de Hobbes - uma alegoria desenhada pelo próprio autor da famosa obra, que ilustra a capa da primeira edição do livro: a cabeça é o monarca absoluto, que o governa sozinho – note-se que não tem nenhuma cabecinha humana nela; a coroa representa a investidura por direito divino; com a mão direita empunha a espada, símbolo do seu dever de proteção ao povo que governa; com a esquerda, segura o cetro, o símbolo do poder; e o corpo, que sustenta tudo isso, é composto pelos cidadãos (ou súditos), prisioneiros dentro de sua forma.
INTRODUÇÃO
Lendo-se “O Leviatã”, de Hobbes, onde ele examina o Commonwealth à luz das relações sociais, sob uma ótica filosófica racionalista, observamos que, já no século XVI, entendia-se ter sido o Estado idealizado com o objetivo de alcançar a felicidade humana. Os direitos e obrigações, desde o início impostos por ele aos cidadãos, eram as condições para que se chegasse a uma proximidade possível da perfeição, mesmo com todos os seus defeitos. Mas, segundo demonstra nessa obra, a burocracia administrativa cresceu demasiadamente, e sua máquina estava devorando a si mesma, prejudicando seu desempenho. Embora o acúmulo de poder torne o Estado uma figura monstruosa, entende ele que a sua morte súbita seria o maior dos males para a sociedade civil, e, pior do que isso seria a sua morte violenta.
A
máquina estatal, em todos os países, tornou-se complexa e morosa, não se desenvolveu
apesar de ter sido trocado o governo absolutista (um só soberano ou príncipe, congregando
em si todas as funções do Estado) pelo governo pluralista (democracias indiretas
com a divisão dos poderes, na maioria três-Executivo, Legislativo e Judiciário —,
nos Estados Modernos). Não houve, na realidade, uma reestruturação da máquina
administrativa existente nos tempos de Hobbes, desde a sua constituição
interna, mas, tão só, a elaboração de um novo organograma de divisão de
funções.
Como exemplo da necessidade de uma
sistematização administrativa para acompanhar o crescimento de uma população,
invoco a organização em uma Biblioteca: no início, quando há uns cinco ou dez livros, podem ser colocados em uma mesma
prateleira, obedecendo uma ordem alfabética por autor e/ou por assunto e
qualquer pessoa, sem dificuldade, encontrará o que quer, indo ali, diretamente.
Mas, quando existem milhares ou milhões de obras, com centenas de prateleiras
distribuídas em inúmeras estantes que
vão até o teto das diversas salas, para serem encontradas as obras desejadas,
em tempo ágil e sem se utilizar soluções improvisadas, que, mais à frente,
prejudicarão o funcionamento de toda a máquina administrativa, já deve ter sido
feita uma catalogação bibliográfica de forma tecnológica, por
profissionais especialmente preparados
para o assunto.
Durante a preponderância da nobreza na
administração do Estado havia uma relação familiar entre os governantes (no
Velho Mundo, apesar de haver Estados independentes, os seus soberanos eram
parentes de sangue, em linha colateral, principalmente por causa dos casamentos
entre as famílias dominantes, e, assim, formavam-se as alianças entre as
diversas nações). Era mesmo a forma comum de tratamento entre os monarcas, “estimado
primo”, “estimada prima”, como demonstrativo da realidade vigente. Havia, por
outro lado, forte identificação entre a
pessoa do soberano absoluto e o Estado, do que é característica a célebre
frase do rei francês Luiz XIV, “L’État c’est moi” (em português “O Estado sou
eu”) . Nas relações internacionais comerciais, cujas trocas se baseavam no binômio
ouro-prata, instalou-se o mercantilismo, doutrina através da
qual os súditos de cada soberano eram incentivados a vender mercadorias
livremente aos demais Estados, contanto que trouxessem para o seu país
quantidades razoáveis desses dois metais, constituintes da riqueza de então.
Mas esses metais rarearam e o colonialismo passou a imperar, para
extração gratuita deles e de matérias-primas em países de menor desenvolvimento
que conquistavam e reduziam a colônias sem soberania ou qualquer forma de autonomia.
Como já colocado acima, com o
decorrer do tempo, não tendo sido feita, na prática, uma reforma de conteúdo na
administração do Estado, a sua máquina de burocracia se manteve a mesma, apenas
com a concentração maior ou menor de determinados aspectos em um dos Poderes. E, não tendo havido essa reforma, ela não
conseguiu acompanhar a evolução das relações sociais, que se tornaram
muito complexas , tanto no aspecto
nacional quanto internacional, globalizando-se em todos os sentidos. Toda essa complexidade de relações sociais em
contraposição a uma máquina burocrática estática, mas “inchada”, que não
acompanha a velocidade necessária para as soluções em exigência, deu origem a
que os interessados se valessem de
formas paralelas de conseguirem para si a celeridade desejada, em detrimento
dos outros, e também da finalidade social do Estado. Surgiu, assim, uma nova
doutrina política, a que se chama de Relativismo, por semelhança de
conceitos com as Ciências Tecnológicas (nada é absoluto em ciência, tudo
depende de um ponto de vista a ser observado ou seguido).
PLURIPARTIDARISMO E VOTO DISTRITAL
Está ocorrendo um problema sério para a
governabilidade, em sistemas multipartidários, quando existem muitos partidos,
e quando a forma de governo é Presidencialista. O detentor do Poder Executivo é
uma pessoa e, não um órgão colegiado. Eleito pelo voto popular direto, muitas
vezes é indicado por um pequeno partido ou por uma coligação em
percentual pouco representativo no total de todos os partidos. Então, depois de
empossado, para poder
coordenar toda a atividade de movimentação da máquina do Estado de forma
a poder levar adiante planos e projetos que foram plataforma da campanha,
como seus projetos de lei devem ser aprovados pelo Poder Legislativo, há, cada
vez mais, a necessidade de fazer amplas coligações
partidárias, para obter uma maioria ampla e confortável nas duas Casas do
Congresso, onde, por sua vez também, deputados e senadores se utilizam do mesmo
expediente para garantir maioria às suas bancadas partidárias, em suas
votações. Nesses Estados, o poder de legislar, na prática, vai-se
desviando para Executivo, cujo Chefe, novamente, fica com uma
concentração muito grande de poder em suas mãos (de Dois dos Poderes do
Estado).
Essa concentração excessiva somente pode ocorrer, na verdade, se o sistema não for o Parlamentarista. Isto porque, no Presidencialista, tanto a representação de Estado quanto a sua administração são funções de um órgão unitário pessoal, isto é, já daí existindo uma concentração de funções com forte poder de barganha política : é justamente a possibilidade de uma só pessoa decidir sobre a elaboração de todo o orçamento, bem como a iniciativa para leis relativas à distribuição de entradas e saídas de verbas estatais, bem como a designação dos locais e programas a serem contemplados. Embora caiba ao Legislativo a aprovação do mesmo, tudo já vem preestabelecido através de contratos e acordos concluídos. Outro problema muito sério que decorre daí é o aparecimento e imposição da filosofia relativista, da qual falarei abaixo, com abertura para a corrupção.
E por que isso não ocorre no Parlamentarismo? Pode até ocorrer, mas é muito difícil, quase impossível, porque as funções de administração e governo são próprias de um Primeiro Ministro indicado pelo Parlamento e por ele destituível a qualquer instante por voto direto de todos os seus componentes, a qualquer momento. E isso é um grande freio na tentação de absorver as funções dos demais Poderes. E, por outro lado, nenhum Partido Político, por mais forte que seja, colocará fé em uma pessoa que não esteja presa a compromissos apenas com ele, já que esse compromisso é com todos os outros partidos, que, através de qualquer um dos seus parlamentares, pode colocar em plenário a Moção de Desconfiança, que, conseguindo retirá-lo ou não, já o enfraquece bastante para a eventualidade de uma segunda vez. Já no Presidencialismo, se houver uma forte coligação partidária no Parlamento, apesar de haver o instituto do "Impeachment”, muito dificilmente este chegará sequer a ser apresentado em plenário.
O único dos Três Poderes que fica à parte das coligações partidárias, por ser, fundamentalmente apartidário, é o Poder Judiciário. Contudo, como os integrantes do Poder Judiciário são indicados pelo Chefe do Poder Executivo , e essa indicação tem de ser referendada pelo Congresso, somente se cada um dos indicados e aprovados possuir um nível muito elevado de independência pessoal é que se manterá a sua completa independência, pois as decisões afetas às causas políticas - interpretação da Constituição - , são sempre tomadas pelo Colegiado reunido. Assim mesmo, o órgão máximo, ou Tribunal Superior só se pronuncia sobre qualquer assunto afeto a esses problemas, se chamado a decidir, mesmo em caso de intervenção, pois esta deve se dar por iniciativa de outra entidade, na forma estabelecida na Constituição do País em causa.
O grande perigo para os Estados que se encontrem nesse caso é a tendência muito séria para o retorno do Absolutismo, ou seja, a concentração de todos os poderes em um só ator político. Não será mais um Absolutismo Pessoal, como ocorre em algumas "ditas" democracias do Oriente, em que há separação dos poderes, mas todos eles são nomeados por um "dito" Presidente, o qual, na verdade , é um Monarca Moderno, a quem todos são subordinados. Será, sim, a Ditadura Partidária - até porque, nos dias de hoje, em qualquer parte do mundo, um só indivíduo, solitariamente, não consegue angariar para si uma tão grande quantidade de votos, e manter a confiança dos eleitores, em um próximo pleito, se não tiver o apoio de um partido muito poderoso ou de uma coligação de partidos. Geralmente, alcança essa situação particularmente privilegiada quando surge um líder popular muito carismático, vulgarmente conhecido como "Salvador da Pátria", ao qual sucedem candidatos do mesmo partido, sempre ligados a essa figura.
Haverá, em consequência, uma dificuldade muito grande de serem as coligações fortes afastadas Poder. Isso somente ocorrerá se a coligação se desfizer, ficando enfraquecido o partido protagonista, o que possibilitará o reerguimento de todos os demais e, então, uma concorrência em igualdade de condições. Mas essa situação de um poder superconcentrado é possível apenas nos sistemas Presidencialistas. Nos Parlamentaristas, existem dois instrumentos de freios e contrapesos surgidos após grande experiência prática no exercício das democracias mais antigas do Mundo Moderno : o Voto ou Moção de Desconfiança contra o Primeiro Ministro e o Voto Distrital na eleição dos representantes de uma Nação, institutos estes inspirados nas Bulés da Antiga Democracia Ateniense (cidadãos acima dos trinta anos e respeitáveis da cidade, que poderiam indicar ou destituir os governantes).
Ficam, então, os
sistemas de governo em Estados caracterizados por essa excessiva concentração
de poder, a caminho de um sistema unitário, teoricamente separado em três
poderes: cabendo a ele a elaboração de projetos de leis, consegue, por essas
coligações partidárias, também no
Legislativo, ampla maioria nas decisões dos seus membros, tanto nas Câmaras de
Deputados quanto nas dos Senados,
aprovando sempre todos os projetos de leis
que realmente lhe interessam. As oposições se enfraquecem, pois ficam
fora das coligações e se transformam em insignificante minoria. E, novamente, o
Poder se concentra excessivamente nas mãos de uma só pessoa.
Nas Democracias já consolidadas pelos anos de exercício, as quais já passaram por esses problemas todos e os superaram, chegou-se a três formas de resolver o problema da governabilidade com um sistema pluripartidarista, sem o risco do absolutismo partidário por enfraquecimento e absorção de um dos Poderes por outro:
- nos países de origem anglo-saxônica, como a Inglaterra e os Estados Unidos, a tradição é muito forte e, por isso, ali, sempre a população se encaminha para filiar-se em duas correntes políticas muito fortes, formando dois grandes partidos e outros muito menores, com pouca expressão, até mesmo na época eleitoral;
- nos países de tradição latina e alemã, transformou-se o Presidencialismo em Parlamentarismo, em que as funções de administração do Estado se deslocam para o 1º. Ministro, que deve ter maioria nas Câmaras e ao Presidente cabe a representatividade política do Estado;
- nos Estados Unidos, na França e na Alemanha, sendo o primeiro
Presidencialista e, os outros dois, Parlamentaristas, criou-se o sistema do
Voto Distrital, de representantes dos moradores de Distritos Territoriais
elegendo diretamente o Presidente, ora, além deles, havendo também o voto
direto de todos os eleitores. .
A esta altura, novamente a
observação de Hobbes se torna
pertinente em nossos dias– talvez, mesmo, estejamos sendo colocados sob o signo
de um moderno “Leviatã”, imagem
holográfica do antigo em degenerescência
— o monstro bíblico ao qual o genial filósofo, teórico político e matemático
inglês do século XVI-XVII comparou o Estado. Mas essa sombra é facilmente
afastável se forem levadas a efeito as necessárias medidas, desta vez atingindo
em profundidade os aspectos políticos e administrativos herdados do “ancien régime” europeu. O grande
problema é, sem dúvida, como sempre, que os acontecimentos sociais não tiram
férias nem entram em recesso, o que dificulta uma transformação repentina, pois
pode colocar em risco a governabilidade do Estado onde será levada a efeito a
reforma adequada.
Expus
até aqui a natureza do homem (cujo orgulho e outras paixões o obrigaram a
submeter-se ao governo), juntamente com o grande poder de seu governante, ao
qual comparei com o Leviatã, tirando
essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo 41 de Jó, onde Deus,
após ter estabelecido o grande poder do Leviatã,
lhe chamou Rei dos Soberbos. Não há nada
na Terra, disse Ele, que se lhe possa
comparar. Ele é feito de maneira a nunca ter medo. Ele vê todas as coisas abaixo dele, e é o Rei de todos os Filhos da
Soberba. Mas dado que é mortal, e
sujeito à degenerescência , do mesmo modo que
todas as outras criaturas
terrenas, e dado que existe no céu (embora não na terra) algo de que ele deve
ter medo, e a cuja lei deve obedecer, vou falar
no capítulo seguinte de suas doenças , e das causas de sua mortalidade;
e de quais as leis de natureza a que
deve obedecer. {In “Leviatã”
ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil , Hobbes, trad.
para o português de João Paulo Monteiro
e Maria Beatriz Nizza da Silva, Ed. Victor Civita, 1ª.ed.,1974,capítulo XXVIII
(in fine)}.
O ESTADO MODERNO E O RELATIVISMO
Por outro ângulo de observação, em razão da necessidade de obter autorização para projetos individuais ou de conglomerados comerciais ou industriais, no âmbito das relações políticas, vemos surgir uma plutocracia — substituta, em semelhança, da aristocracia dos nobres do “ancien régime” que a Revolução Francesa (1789-1799) pretendeu abolir da face da Terra . Essa plutocracia é a elitização da classe política aliada à classe rica da nova sociedade humana, a partir da Revolução Industrial, cujo principal interesse é encontrar o poder reunido, novamente, em uma só pessoa, a fim de poder ficar mais próxima dele e, assim, conseguir melhores condições de convencimento dos oficiais do “Príncipe Moderno”, sem a dispersão de esforços e gastos financeiros (muito mais elevados) se fosse necessário lidar com todos os membros de uma Câmara de Deputados e de Senadores. Nisso consiste a situação propícia ao nascimento do Relativismo, como doutrina política: “o coletivo e o individual reportam-se a um ponto de vista ou perspectiva do interesse do partido, da corporação, da empresa, e, finalmente, das necessidades de vida do próprio indivíduo e sua família”, passando-se a confundir-se o interesse público com o individual. Ou seja, um retorno à ideia do “L’État c’est moi” de Luiz XIV, transposto para a nossa sociedade de consumo.
Ainda segundo Forbes, estaríamos passando de uma era para outra, em que os antigos padrões de comportamento e valores já não atendem mais às necessidades da sociedade, mas que esta ainda não encontrou os novos, os quais deverão levar em conta parâmetros já então globais, com a forma de representatividade política revista. Acresce ele que a atual, fundada na liderança, já está se demonstrando frágil, doentia, arrasada pela sucumbência dos indivíduos envolvidos com os poderes políticos, incapazes de se mostrarem à altura dos reclamos atuais. E citou o Papa João Paulo II, que muito chamou a atenção, durante o seu período de atividade, para que se combatesse a relatividade no mundo, consequência da perda de padrões morais inerentes a uma elevação de respeito ao ser humano e ao ambiente onde vive.
CONCLUSÃO
De qualquer modo, nesse período que permeia a era que finda e a outra que está se aproximando, é necessária uma ponte para que a passagem se faça com relativa tranquilidade, para evitar maiores prejuízos às gerações vindouras: para tanto se entende que o Terceiro Setor, florescido no mundo inteiro a partir da última vintena do século passado, na forma de organizações não governamentais, pode semear o embrião de uma futura forma de governo que atenda à necessária organização de uma sociedade universalista, com elevado nível de desenvolvimento social e tecnológico, para cujo arquétipo estamos nos encaminhando, com a internacionalização globalizada instituída a partir da reforma levada a efeito através do instrumento Internet.



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