terça-feira, 9 de julho de 2013

DETECÇÃO TARDIA DA CORRUPÇÃO


DETECÇÃO TARDIA DA CORRUPÇÃO


 
                                                          

 Montesquieu e Maquiavel
 
                                 A História, há muito tempo, vem  demonstrando que  em toda sociedade organizada, onde existe uma construção normativa de sua ordem política, sempre há possibilidade de  surgir a corrupção,  que tanto pode ser de governo (da administração em geral)  ou  pessoal (de cada  um de  seus oficiais e funcionários ou grupos deles). Isso porque sempre há jogos de interesses em conflito na condução administrativa. Tal ocorreu na Grécia Antiga e no Império Romano, cuja intensidade desse mal se agravou já no final  dessa  fabulosa  civilização,  que deixou seu legado de organização a toda a sociedade ocidental moderna. Sendo assim, conclui-se que a corrupção sempre existirá, em maior ou menor grau, conforme exista menor ou  maior controle das atividades pessoais dos funcionários  e menor ou  maior  desenvolvimento  moral e ético em todo ente estatal organizado. Embora o aspecto e a definição  dos atos considerados corruptos possam variar em tempo e espaço, ela sempre  estará  presente quando houver  desigualdades sociais e declínio das virtudes cívicas  do Estado.
 
                                    O que vem ocorrendo no Mundo Moderno, a partir das revoluções burguesas do final do século XVIII, e com o advento da revolução industrial e da sociedade de consumo,  é  um declínio da  moral na condução das atividades públicas, o que, teoricamente, não  seria de se esperar do  Homo sapiens  mais especializado intelectualmente, com  sua mente  em busca de melhores condições de vida. O que se vê, na prática,   é a supremacia de interesses em relação às virtudes morais. Anteriormente, a política vinha sempre aliada à ética.
 
                                      Montesquieu, no livro oitavo da sua obra O Espírito das Leis (século XVII) ,  analisando toda essa problemática, chegou a uma fórmula  de controle da  corrupção, entendendo, contudo, que não se poderia alcançar índice zero, mas bem perto disso. Foi a célebre divisão de poderes do antigo monarca absolutista, distribuídos  entre agentes, caracterizados por ele como   Poderes independentes e harmônicos entre si  (Executivo, Legislativo, Judiciário e Moderador),  fiscalizando-se mutuamente, com um sistema de freios e contrapesos. Todos os Estados Modernos o adotam, a partir de então, a maioria  tendo abolido o Poder Moderador, que,  no Brasil, existiu durante o 1°. Reinado (de Dom Pedro I), previsto na Constituição Imperial, não mais contemplado na nossa República. Esse sistema funcionou muito bem, conseguindo assegurar a paz social e a liberdade durante muito tempo em todas as  Nações que o adotaram.
 
                                     A partir  do início do século  XIX, mais e mais os  conceitos de ética e política  foram-se distanciando, pela defesa de filosofias existenciais concedentes à arte da política   maior abertura para escolhas de meios, com a ideia de que os fins os  justificam , à guisa de adoção de  metas e ações estabelecidas no Príncipe, de Maquiavel (século XV a XVI).  É a partir da  crescente   comercialização das relações entre  os componentes da sociedade em geral que os meios passam a justificar, cada vez mais os fins, e o bem comum vai ficando cada vez mais ignorado, passando a ser substituído pelo bem da própria   pessoa, do seu grupo, da sua família, da associação político-partidária a que pertence, durante a utilização dos meios, o que se chama de relativismo . Essa prática passa, imperceptivelmente, a ser uma filosofia social. E é sob essa filosofia social que se educam os cidadãos, desaguando por essa via de consequência na vivência da  classe política,  cujos atores são,  de qualquer forma, procedentes  desse mesmo conjunto de cidadãos organizado nesse contexto social. Já chegam, pois, aos  cargos dos Poderes do Estado, influenciados, uns mais, outros menos, com  essa orientação.
 
                                  Na verdade, a corrupção não é idêntica em todas as épocas e locais. Ela depende de cada situação particularmente  histórica de um povo para apresentar-se em um formato ou outro, isto é, de acordo com o que, naquele exato momento e naquele exato local, represente  um bem passível de uma troca  comercial vantajosa, tanto para o corruptor quanto para o corrompido.   
 
                                As relações na  sociedade moderna foram-se  tornando cada vez mais complexas, havendo, nos diais atuais , cada vez em maior gradação, o desejo das pessoas em acumular mais e mais capital para um destaque maior frente aos demais, o que leva os atores políticos a se representarem no Poder Público como representantes de interesses, próprios, de corporações e partidos, com menos capacidade de sustentar, sobre esses interesses, a precedência do bem comum.    
 
 
                                                          
                                                        
                                                                   

 No Mundo Moderno                              

   
                                  Na maior parte das vezes, os órgãos públicos encarregados da fiscalização e punição dos políticos somente têm notícia dos atos desviantes de conduta política ou mesmo de corrupção, quando já é muito tarde para corrigi-los através dos órgãos estatais administrativos e judiciários. E estes não estão preparados para o repentino estado de desagregação de valores e padrões das classes políticas estatais do mundo moderno. Por outro lado, a máquina do Estado, geralmente complexa e  excessivamente burocratizada, à qual incumbe a fiscalização e apuração de atos desviantes, não possui a celeridade suficiente para a detecção e correção das atividades do corruptor (corrupção ativa) e do corrompido (corrupção passiva) antes que já tenham assumido proporções perigosas para a estabilidade social. Não havendo mais o Poder Moderador, falta uma entidade que, completamente isenta  das peculiaridades dos outros Poderes, possa  agir com total independência. Criaram-se os Tribunais de Contas, mas estes  são  subordinados a um dos Três Poderes, geralmente ao  Legislativo, e não têm a supremacia  de um ente sancionador, que, este sim, dá força à atividade de fiscalização.

                                 E, por isso, geralmente, saem ilesos corruptores e corrompidos, que, de tanto hábito de praticar esses ilícitos, sem a devida punição, perdem a noção da ética, dos padrões sociais e dos limites, e chegam a acreditar mesmo estarem agindo dentro da mais absoluta normalidade. Comportam-se, nas mais das vezes, como vítimas de algozes incultos. E,  em determinado momento, são tomados de  elevada arrogância, pois, a essa altura, não existe alguém que lhes ponha cobro aos atos desviantes ou os destitua dos cargos que ocupam.
 
                                 E se a máquina estatal não consegue acompanhar as mudanças de padrão surgidas com  o evento da globalização e da revolução industrial, estabelecendo os caminhos éticos necessários para a estabilidade social, cabe ao povo, que já sente as consequências desses fatos históricos em adversidades ao seu bem estar, exercer essa função, diretamente, como um Poder Moderador que exija reformas para conter os males da corrupção. Se a classe política não consegue encontrar o seu norte, nesse emaranhado de acontecimentos, a intervenção do Sociedade, como ente à parte dos Poderes Constituídos mas ao seu lado, é uma  ajuda ao Governo na solução desses impasses - e a finalidade dessa intervenção  é, justamente, que se restabeleçam as condições necessárias aos Poderes do Estado para   este retomar a gerencia da coisa pública eficazmente. É o que se vê atualmente, nesses movimentos massivos das populações nas ruas :  é a própria sociedade , da qual procedem todos os atores da ordem pública, que, abraçando a sua responsabilidade  objetiva,  está decidindo, em vários locais do nosso Planeta onde existem Estados Organizados, inclusive em nosso País, clamar pelo restabelecimento de princípios éticos   necessários a assegurar a paz social e a liberdade.

 

 

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