O “ANIMAL CÍVICO” NO SÉCULO XXI
O ser humano,
como elemento formador da população, é essencial à existência de uma nação e, consequentemente,
inalienável componente do Estado. Para participar da vida social do Estado, é
necessário, contudo, exercer sua cidadania.
Data venia de opiniões em contrário, ainda no século XXI o ser humano continua a ser, naturalmente, feito para a sociedade política, ou seja, o Homo sapiens é um “animal cívico” a partir de sua constituição original, assim definido por Aristóteles, na Antiga Grécia, no século IV antes de Cristo. E tal afirmação é cabível em qualquer das teorias sobre o seu surgimento na face da Terra, das quais as principais são: o Criacionismo, da Bíblia Cristã (Livro Gênesis), o Evolucionismo, de Darwin, exposta em seu livro A Origem das Espécies, e a mais moderna, que congrega princípios dessas duas, a do Neocriacionismo ou Desenho Inteligente, defendida, dentre outros , por Charles Thaxton. A contemporaneidade das palavras do gênio grego que influenciou o pensamento filosófico tanto do Ocidente quanto do Oriente, até hoje, é comprovada pelos últimos acontecimentos mundiais que os antropólogos denominam de “enxame humano”.
Esses movimentos, levados a efeito nas modernas cidades ocidentais e orientais que substituíram as antigas vilas medievais, corporificam-se na reunião do povo, em massa, nas ruas e praças para protestar pacificamente contra a corrosão ou inadequação de formas de organização política das estruturas dos Estados, a que pertencem, em face das realidades sociais modernas e para exigir das autoridades constituídas a aplicação de direitos naturais e políticos considerados como essenciais ao equilíbrio social e à garantia das liberdades fundamentais do ser humano, os quais entendem lhes estarem sendo negados ou desvirtuados.
Pretendem, esses novos movimentos cívicos, em suma, uma reformulação daquilo que Rousseau decidiu denominar de "contrato social”, uma construção filosófica elaborada por ele quando examinou e discorreu sobre a "origem das desigualdades entre os homens". Entende o notável filósofo humanista que os seres humanos, em seu início, estariam grupados em pequenos aglomerados, em constantes perigos, provenientes não só de predadores e do meio ambiente hostil que os cercava, mas também de lutas travadas entre eles mesmos para a manutenção do território necessário à sua sobrevivência - e que, por acordo unânime ou da grande maioria, teriam renunciado a algumas facilidades (atinentes a direitos particulares) que a vida fora do ambiente social lhes permitia, por conta de uma proteção que determinado indivíduo ou um grupo liderado por ele lhes prestaria, lutando por eles permanentemente. E, através desse pacto, colocaram-se sob a proteção daqueles, aos quais prestariam obediência - esses indivíduos assim escolhidos viriam a ser os seus soberanos. Todos entenderam, então, que estariam, assim, a salvo de perigos e livres para sempre para serem felizes e poderem evoluir com tranquilidade, o que lhes seria de imensa vantagem. Um comentário final dessa monumental obra , segundo seu autor, foi de que as pessoas que juraram obediência se esqueceram, contudo, de colocar uma cláusula nesse instrumento contratual que estabelecesse uma forma de retomar esses poderes assim delegados (entendendo que os eleitos perceberam isso mas, "espertamente" fizeram de conta que também esqueceram para poderem manter sua situação de poder) - e que, dessa forma, os cidadãos originários "teriam criado os seus próprios grilhões". Desde que foi percebido esse fato por eles, iniciou-se a luta para sua desconstrução, que até os nossos dias somos capazes de observar.
Agora, nos tempos contemporâneos da nossa geração, dentro desse raciocínio, os cidadãos
da modernidade humana pretendem uma grande reformulação do "contrato social" em vigor, já sob a forma de Constituições ou Leis Maiores nos Estados Modernos democratizados, ou em normas pretensamente consuetudinárias em regimes fechados,
para um ajuste às circunstâncias especiais de desenvolvimento humano a que chegamos. E, nesses movimentos, podemos identificar dois aspectos :
b)
mediato, que já se delineia nos primeiros passos para a constituição de uma
nova forma de participação coletiva
cidadã, com a reunião das individualidades em um todo social , permanentemente, para participar de maneira direta e contínua do acompanhamento, fiscalização e crítica da atividade dos atores políticos em ação.
Essa nova forma de interação
entre a sociedade e os órgãos políticos do Estado é resultado do entendimento de
uma nova filosofia existencial que se inicia no ser humano nos dias de hoje, por causa da
tomada de consciência, através da globalização das comunicações, de um conceito
de universalidade das relações entre seres da mesma espécie (a humana, no caso)
e o meio ambiente em que habita. Vem a contrapor-se à cultura do relativismo político
(que prega a supremacia dos interesses individuais ou de grupos sobre as
virtudes de ética e moral do bem estar da coletividade). Por isso é um movimento apartidário, eis que surge do princípio mesmo que norteia o "contrato social" , isto é, trata-se de um movimento de conteúdo substantivo originário e, não, de processo organizacional do Estado.
Nos Estados ainda não democráticos,
esses movimentos em massa, que os antropólogos denominam "enxames humanos", à semelhança da reunião de abelhas em defesa da colmeia, são, ainda, a tentativa de transformação, não apenas de uma forma de participação popular nas decisões de Estado e de Governo, mas da própria participação em si,
a qual ali não existe sequer indiretamente. E essa circunstância torna essa transição mais profunda e de difícil execução frente aos poderes dominantes, que insistem em negar esse direito de cidadania, inerente à condição individual dos componentes da nacionalidade. Por causa disso, como ocorre em todo movimento inicial, vem revestido com a agressividade instintiva de defesa, própria
do ser animal (que nós somos) em prol da sobrevivência da espécie – no caso, a sobrevivência dos
valores culturais e da sua própria
existência como povo.
De outro lado, nos países democratizados mas em estágio
recente de Democracia, como o nosso, esses movimentos já estão em um segundo
estágio, onde a ação popular é levada a efeito com tranquilidade, em reuniões pacíficas mas
enérgicas, pois se trata de mais uma etapa evolucionária de um sistema
preexistente – os excessos, que por vezes são levados até a violências, são
ocorrências menores, pois essas sociedades humanas, nesse estágio, que não é de
desenvolvimento pleno, ainda têm muita
desigualdade social . Desigualdade essa nas mais das vezes decorrente da má distribuição dos bens e serviços pelo Estado, cuja máquina possui excesso burocrático e não consegue fiscalizar a atividade de corrupção de seus agentes políticos, que se desviam da finalidade social a que se propõem os cargos que ocupam.
A propósito, a colocação filosófica de Aristóteles, sobre a natureza cívica humana:
“O homem, animal cívico
A
sociedade que se forma da reunião de várias vilas, constitui a Cidade que tem a
capacidade de se suprir, estando organizada não somente para conservar sua
existência, mas ainda para procurar o bem-estar. Essa sociedade é então, ela
também, dentro dos princípios estabelecidos pela Natureza, como todos os outros
elementos que a compõem. Ora, a natureza de qualquer coisa é precisamente o seu
fim. Assim, quando um ser é perfeito, de qualquer espécie que ele seja – homem,
cavalo, família -, diz-se que ele está na Natureza. Por outro lado, a coisa
que, pela mesma razão, ultrapassa as outras e se aproxima mais da meta proposta,
deve ser olhada como a melhor. A meta à qual se propõe toda produção da Natureza
é bastar-se a si mesma e esse estado é também o mais perfeito. Também é
evidente que toda Cidade faz parte da Natureza, e que o homem foi naturalmente criado
para a sociedade política. Aquele que por seu natural, e não por efeito do
acaso, existisse sem nenhuma pátria, seria um indivíduo detestável muito abaixo
ou muito acima do homem, segundo Homero:
De qualquer sorte, o que existe
atualmente no sistema da democracia indireta por sufrágio, sem voto
distrital, é a impossibilidade de o cidadão ter suficiente conhecimento sobre a
vida pregressa dos seus representantes. Nesse sentido é que dão a eles, assim,
com o seu voto, uma verdadeira procuração em branco, tendo-se em conta que,
eleito, o candidato não se atém às promessas de campanha nem cumpre as metas para
as quais foi eleito.
E a situação, antes do advento da INTERNET e de suas REDES SOCIAIS era a seguinte : o cidadão, envolvido pela complexidade da
vida no mundo moderno, via-se afastado de sua natureza social, porque se alheava do
exercício pleno da cidadania, contra a sua vontade. Por causa de circunstâncias
contra as quais não pode, individualmente, opor resistência a esses fatos, quer por desconhecimento dos mesmos em si, quer por falta de tempo, aceita a versão que lhes é apresentada por terceiros, sem uma análise mais detalhada. E os seus concidadãos que lhe são
próximos se encontram na mesma situação, havendo pouca ou nenhuma comunicação
entre eles.
Então, a frase lapidar de Aristóteles mais uma vez se faz lembrar, desta feita na palavra dos antropólogos, que resumem as ocorrências no termo "enxame humano", inspirados na célebre frase do FILÓSOFO, que compara o ser humano às abelhas. Mas é de notar que essa comparação é para ressaltar a superioridade da civilidade humana, já percebida e dita há muitos séculos, na Nação Grega onde também surgiu a Democracia.
Essa frase do imortal grego tem um conteúdo muito rico, embora não escrito, perceptível agora mais do que nunca : sim, "o homem é também um animal cívico, mais social do que as abelhas e outros animais que vivem juntos", não somente pela preensão instintiva, que implica no conhecimento do fato, sem necessidade do raciocínio lógico, mas, principalmente, pela compreensão, a qual exige lógica no entendimento, o que garante a essa civilidade racionalmente lógica humana a dose que lhe dá um "plus" de legitimidade para alcançar novas formas, mais evoluídas, de organização social .
Ao final, devo dizer que entendo ser a preensão de sociabilidade e seu formato imutável, alguma coisa já programada no DNA dos animais sociais irracionais, uma decorrência de terem já atingido a perfeição adequada à meta evolucionária da espécie, pois todas as coisas estão programadas em nosso mundo dos sentidos em concordância com a necessidade da Natureza para a contínua evolução universal. E, por um raciocínio em contrário , chego à conclusão de que, já no ser humano, essa compreensão, como exercício lógico de nossa mente, não vem inscrita no nosso DNA, porque a nós cabe alcançar ainda degraus superiores evolucionários - e, por isso mesmo, o que está inscrito em nosso DNA é a capacidade de aprendê-la. E esse entendimento me faz chegar a outra conclusão, a de que temos, realmente, a capacidade de evoluir, a qual poderá ou não ser aproveitada por nós, em razão do nosso livre arbítrio.
O que me traz, porém, nesses acontecimentos a que todos estamos sujeitos nesses conturbados dias de hoje, a grande esperança em um futuro glorioso para o ser humano, é verificar que, em pleno século XXI, em plena efervescência do caldeirão de desestruturações sociais, o nosso jovem, o futuro da humanidade, soube utilizar um instrumento fruto da nossa Ciência Racional, a INTERNET, e aplica-lo em prol de objetivos imateriais capazes de nos aproximar dos anjos e dos deuses : a luta por moral e ética é a sua bandeira, demonstrando, inequivocamente, a que veio a próxima geração. Sendo assim, todos, principalmente aqueles que, como eu, tenham entendido essa colocação do Destino em nossas mãos, devemos contribuir para que consigam essa meta.
E, por tudo isso, sinto-me intensamente grata aos fados por me proporcionarem, em pleno outono da minha vida, assistir a mais essa demonstração do valor humano, o que, de qualquer forma, tenho certeza, vai fazer vocês me desculparem por, neste artigo de Blog, ter-me estendido tanto sobre o assunto.




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