CONTROLE SOCIAL:
IMPULSOS INDIVIDUAIS/RESPOSTAS SOCIAIS
(Excerto de obra clássica de Erich Fromm)
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Introdução
Entendo ser oportuno colocar uma visão sóciopsicológica dos
elementos endógenos e exógenos ao indivíduo e aos grupos sociais capazes de
produzir alterações nos contextos da administração política de um Estado e
nas relações sociais. E, para tanto, trouxe um texto extraído da obra de
um dos maiores sociólogos-psicólogos de nossa atualidade, que nasceu em 1900 e
permaneceu, até 1980, a nos fornecer a suas luzes. Seus posicionamentos são
modernos e extraídos, pelo seu cérebro brilhante, das experiências muito
importantes da Humanidade, no século XX, que vieram a se refletir neste
início do XXI, nas sociedades organizadas, do Ocidente e Oriente: a implantação
da industrialização, com o alto consumo do petróleo, da massificação da
sociedade, do consumismo, o início e a queda do Comunismo como forma
de Estado, bem como duas Guerras Mundiais. Trata-se de Erich Fromm, e é um
excerto da sua obra intitulada “O Dogma de Cristo”, Tradução de Waltensir
Dutra, Editora Guanabara, 5a. Edição, pp. 17-24.
Os grifos e os subtítulos foram acrescidos por nós, como uma forma
de enfatizar determinados aspectos do conteúdo do texto em causa – no
livro, o texto é corrido. O subtítulo, no livro, é : “A Função Sociopsicológica
da Religião” e comporta , ali, uma exposição muito extensa, da
qual extraí, para essa postagem, apenas a parte inicial, que
interessa ao estudo que venho mantendo juntamente com vocês, sobre os
fatores de modificação das atividades do cidadão, individual ou em grupo,
frente às elites políticas, a partir dos movimentos , no Brasil, de Junho
próximo passado e a origem da violência no ser humano. Sendo assim, coloquei um
título diverso daquele para este trabalho, vez que inclui uma parte de
minha autoria, ao final, intitulada “Minhas
Conclusões”.
De início devo afirmar que concordo com as opiniões científicas de Erich Fromm,
de cujo intelecto privilegiado sou admiradora e leitora convicta de
suas diversas obras, onde muito tenho aprendido para levar a efeito os meus
trabalhos sobre sociedade e indivíduo, a par de outros autores,
brasileiros e estrangeiros, também muito apreciados.
Este trabalho está assim dividido:
Título: Controle Social : Impulsos
Individuais /Respostas Sociais
Subtítulos: Introdução; Conceito de Psicanálise e
Impulso do Sexo e do Ego; O Princípio do
Prazer; Estrutura Emocional do Indivíduo face à Sociedade; Minhas
Conclusões .
ERICH FROMM
Conceito de Psicanálise e Impulso do Sexo e do Ego
“A PSICANÁLISE é a psicologia das tendências ou impulsos. Vê o comportamento
humano como condicionado e definido por impulsos emocionais, que interpreta
como resultado de certos impulsos psicologicamente enraizados, e que não são
objeto da observação imediata.
Seguindo,
desde o princípio, a classificação popular de impulsos de fome e impulsos do
amor, Freud distingue entre o ego, ou a autopreservação, e os impulsos sexuais.
Devido ao caráter
libidinoso dos impulsos de autopreservação do ego, e devido à significação
especial das tendências destruidoras na constituição psíquica do homem,
Freud sugeriu uma divisão diferente, levando em conta o contraste entre os
impulsos mantenedores de vida e os impulsos destruidores. Essa
classificação não requer, aqui, maiores comentários. O importante é o
reconhecimento de ceras qualidades do impulso sexual que o distinguem dos
impulsos do ego.
Os
impulsos do sexo não são imperativos, ou seja, é possível deixar suas
exigências insatisfeitas sem ameaçar com isso a própria vida, o que
não seria o caso com as exigências da fome, da sede e da necessidade de
dormir. Além disso, os impulsos sexuais, e até um ponto não-insignificante,
podem ser satisfeitos pela imaginação e com o próprio corpo. São, portanto,
muito mais independentes da realidade externa do que os impulsos do ego.
Intimamente relacionadas com este estão a transferência fácil e a
capacidade de intercâmbio entre os impulsos componentes da sexualidade. A
frustação de um impulso libidinal pode ser compensada, com relativa facilidade,
pela substituição por outro impulso cuja satisfação é possível. Tais
flexibilidade e versatilidade dos impulsos sexuais são a base da extraordinária
variabilidade da estrutura psíquica, e nisso está, também, a possibilidade de
as experiências individuais afetarem, de forma tão definida e marca, a
estrutura da libido.
O Princípio do Prazer
Freud vê o princípio do prazer, modificado pelo princípio da realidade como o
regulador do aparato psíquico. Diz ele:
Vamos,
portanto, voltar nossa atenção para uma indagação menos ambiciosa – a de
revelarem ou não os homens, pelo seu comportamento, os objetivos e intenções de
suas vidas. O que pretendem da vida e o que desejam realizar nela? A resposta
não deixa dúvidas. Procuram a felicidade, querem tornar-se felizes e continuar
felizes. Esse objetivo tem dois aspectos, uma finalidade positiva e outra
negativa. Visa, sob um aspecto, à ausência da dor e de coisas desagradáveis, e
sob outro, à experiência de fortes sensações de prazer. Em seu sentido
limitado, a palavra “FELICIDADE” SE RELACIONA APENAS COM OS SENTIMENTOS DE
PRAZER. De acordo com essa dicotomia de finalidade, a atividade do homem se
desenvolve em duas direções, segundo busque realizar – de forma principal ou
mesmo exclusiva – um ou outro desses objetivos. (In “Civilization
and its Discontents” , em português “Civilização e seus Descontentamentos”,
Standard Edition, XXI, p.76)
Estrutura Emocional do Indivíduo face à Sociedade
O indivíduo quer experimentar — em dadas circunstâncias – uma satisfação máxima
da libido e um mínimo de dor. Para evitar esta, pode aceitar as transformações
ou mesmo frustrações dos diferentes componentes dos impulsos sexuais. Uma
renúncia semelhante aos impulsos do ego, porém, é impossível.
A sociedade tem uma função dupla na situação psíquica do indivíduo,
frustrando-a e satisfazendo-a. As pessoas dificilmente renunciam aos impulsos
por verem o perigo que resultará de sua satisfação. Geralmente, a sociedade
impõe tais renúncias:
- primeiro, há as proibições estabelecidas à base do reconhecimento social de
um perigo real para
o próprio indivíduo, perigo que não percebe imediatamente e que está
ligado à satisfação do impulso;
- segundo, há a repressão e frustração de impulsos cuja satisfação provocaria
danos não no indivíduo, mas ao grupo; e,
-
finalmente, as renúncias feitas não no interesse do grupo, mas apenas de uma classe dominante.
A função
"satisfatória" da
sociedade não é menos clara do que seu papel frustrativo. O indivíduo só a
aceita porque, através de sua ajuda, pode, até certo ponto, esperar conseguir
satisfação de evitar sofrimento, principalmente em relação à satisfação das
necessidades elementares de preservação, e, em segundo lugar, em relação à
satisfação das necessidades libidinosas.
O que dissemos não levou em conta as características específicas de todas as
sociedades conhecidas historicamente. Os membros de uma
sociedade não se consultam, na realidade para determinar o que esta pode
permitir e o que deve proibir. Enquanto as forças produtoras
da economia não são suficientes para proporcionar a todos a satisfação adequada
de suas necessidades materiais e culturais (ou seja, mais do que a proteção
contra o perigo externo e a satisfação das necessidades elementares do ego), a classe social mais
poderosa procurará obter o máximo de satisfação de suas necessidades, primeiro. O grau de
satisfação que proporciona aos que são governados por ela depende do nível das
possibilidades econômicas disponíveis e também do fato de que um mínimo de
satisfação deve ser proporcionado aos que são governados,
de modo que possam continuar a funcionar como membros cooperantes
da sociedade.
A estabilidade
social depende relativamente pouco do uso da força externa. Depende, em sua
maior parte, de se encontrarem os homens numa condição psíquica que os prenda
intimamente a uma situação social existente. Para isso, como já observamos, é
necessário um mínimo de satisfação das necessidades naturais e culturais
instintivas. (grifos nossos)
(............................)
Vamos resumir o que
dissemos até agora. O homem por um máximo prazer; a realidade social o obriga a
renunciar a muitos dos impulsos, e a sociedade procura recompensar o
indivíduo por essas renúncias, proporcionando-lhe outras satisfações
inofensivas para ela, ou seja, para as classes dominantes.
Tais satisfações podem, em essência, ser obtidas pela imaginação, especialmente
pelas fantasias coletivas. Têm uma função importante na realidade social.
Na medida em que a sociedade não permite uma satisfação real, as satisfações da
imaginação servem como substitutivo e se tornam um apoio poderoso da
estabilidade social. Quanto maiores as renúncias que os homens que os homens
suportam na realidade tanto mais forte deve ser o desejo de compensação. As
satisfações da imaginação têm a dupla função característica de todo narcótico:
agem tanto como anódino quanto como repressão de uma transformação ativa da
realidade. As satisfações da imaginação ou fantasia têm uma vantagem essencial
sobre os devaneios individuais: em virtude de sua universalidade, são
percebidas pela mente consciente como se reais fossem. A ilusão partilhada por
todos se torna uma realidade. A mais velha dessas satisfações fantasiosas
coletivas é a religião. Com o desenvolvimento progressivo da sociedade, as
fantasias se tornam mais complicadas e racionalizadas. A própria religião se torna
distinta, e a seu lado surgem a poesia, a arte, a filosofia, como expressões de
fantasias coletivas.”
Minhas Conclusões
Erich Fromm foi um sociólogo que se dedicou ao estudo da
psicologia e elaborou teorias e estudos em que analisou a
inter-relação entre o comportamento individual do ser humano e deste
quando em sociedade. Neste texto apresenta características da psique
humana em confronto com a organização social, destacando a
sobreposição das classes sociais, com a elite dominante determinando os
rumos a serem tomados. E elementos capazes de manter as massas passivas e
submissas às vontades das elites dominantes, que se aproveitam, para tanto,
de elementos imateriais idealizados pelas pessoas, que chama de “satisfações
da imaginação” ou “fantasias coletivas”, através das quais elas
substituem a sua “satisfação real” que a sociedade não lhes permite (apontando,
dentre elas, o fervor religioso, a poesia, a arte, a filosofia) .
Afasto-me de qualquer crítica ou comentário do genial sociólogo e
psicólogo quanto à classificação que dá a atividades religiosas, de poesia, de
arte e de filosofia, como “fantasias coletivas”. Nesse ponto entendo, em um
contexto neoplatônico acrescido de alguns detalhes por mim, conforme exponho no
meu livro sobre a “Teoria da Restituição”, que o mundo real é o Mundo das
Ideias e o irreal é o Mundo dos Sentidos. Há um paradigma de há muito
conhecido, de que os próprios possuidores dos conceitos que os expõem morrem,
perecem, mas suas ideias se forem boas, são aceitas por grande porcentagem de
pessoas e permanecem para sempre enquanto durar a espécie. Exemplos dessas
ideias: o uso da roda, e as diversas religiões que pregam a paz e o amor ao
próximo, apesar de há muito terem sido mortos os grandes homens que as
elaboraram. Aliás, nem se sabe o nome ou quando a roda foi inventada. Contudo,
no livro, o Autor continua em sua demonstração, que contém muito mais
pensamentos do que os ora trazidos ao seu conhecimento - recomendo a leitura
integral da obra, que é muito interessante e em linguagem direta e
acessível aos leigos no ramo da Psicologia.
(1º.) abolição da
escravatura:
Auriverde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do Sol encerra
E as promessas divinas da esperança ...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servir a um povo de mortalha ...
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(2º.) a Democracia:
A
ideia lançada por grandes sábios e governantes da antiga Atenas (dentre eles Sólon
e Péricles), do governo exercido pelo povo e para o povo, que foi abafada depois
da queda da Grande Cidade pela conquista por Esparta, e mortos os
idealizadores e executores, ressurgiu, mais forte e mais elaborada a partir do
século XIX da Nova Era do Mundo Ocidental, sendo seguida até os dias de hoje,
em todas as Nações mais desenvolvidas da Terra, inclusive no Brasil. Resistiu à
passagem de conquistadores e do tempo.
O grande Mestre Jesus, em uma longínqua província asiática do Império Romano,
trouxe uma ideia de evolução humana através do amor ao próximo, com um
novo mandamento central aos seus seguidores: não só fazer ao próximo o bem , mas
fazer a ele o que desejasse que fizessem a si próprios. E foi às praças, aos
templos, e criticou as ideias antigas e as práticas malfeitas a partir de más
interpretações de textos considerados sagrados, tanto para o seu povo, sob o
jugo romano, quanto para a própria ideologia da mítica romana
da existência de inúmeros deuses. Todos sabem que Jesus
foi crucificado, pois o Império e o Sinédrio pensaram que, assim, com tal
castigo terrível e ao mesmo tempo humilhante, estaria sanada qualquer
influência sua. O homem morreu, mas, algum tempo depois (eis que na História da
Terra alguns séculos não são muita coisa), o próprio Império Romano que o
crucificara adotou suas ideias, iniciando-se, daí, a maior religião já
existente, perdurando até os dias de hoje, com 1/3 dos habitantes da Terra a
segui-la.
Entendo,
sim, com o magistral Fromm, que existe a “satisfação fantasiosa
coletiva” para substituir provisoriamente a renúncia a um
impulso humano ou de uma coletividade em face da imposição de uma elite
dominante, ou por outro motivo. Mas discordo dele ao incluir, nelas, a
Religião, a Poesia, a Arte, a Filosofia. O que existe, nesse caso, como ele
mesmo explica, é a ocorrência de complexidades que levam o ser humano a
elaborações conceituais mais racionais a respeito dos seus dogmas e princípios.
Por vezes, até, o abandono de uma religião, ou de uma forma poética, ou
de arte e filosofia, por outras, conforme a evolução dos acontecimentos, não só
sociais, mas também de descobertas científicas, como nos dias de hoje, faz parte do processo interior do indivíduo à procura do divino em uma visão mais concernente com sua evolução interior. Mas
esses entes imateriais, assim como a Justiça, a Liberdade e o Amor são
conceitos eternos, inseridos na própria conformação – imaterial – do ser
humano.
As
elites dominantes e a forma de dominação é que desaparecem e se
transformam. Talvez vocês me contestem, a essa altura, alegando que as elites
dominantes sempre existiram e ainda existem, o que modifica é sua adaptação aos
tempos e às novas formas de tecnologia e de reunião social. Mas me
contraponho a esse entendimento, dizendo que:
a)
o fato de serem, talvez, eternas, não retira a eternidade das instituições
imateriais acima indicadas;
c) interpretando
esse embate entre elites e dominados, a Religião, a Filosofia, a Arte, e a
Poesia, como também a Sátira, chegam a transformar situações existentes
ou que venham a ocorrer, colocando a nu, para cada indivíduo, determinados
aspectos ainda não observados.
Não
se pode, por outro lado, dizer que a dominação das elites políticas
é “satisfação fantasiosa coletiva”, para as massas
justificarem sua insatisfação com o não atendimento a suas necessidades e
direitos naturais nas organizações sociais. Pois esse fato não é
decorrente de uma construção racional do pensamento humano - mas, isto sim,
um efeito das relações concretas entre os atores políticos e
os cidadãos de um Estado. Por outro lado, essa dominação pode se dar de
formas não perceptíveis materialmente, eis que se utilizam , muitas
vezes, da manipulação dos desejos e impulsos do indivíduo, conforme nos
demonstra Fromm, acima colocado. Outras vezes há percepção
flagrante, através da observação de instrumentos que constroem ou aproveitam
para desviar a atenção dos dominados, ao mesmo tempo satisfazendo seus
impulsos. Neste último caso cita-se o exemplo tradicional do Império Romano:
muito extenso e constituído de muitos povos de costumes, línguas e raças
diversificadas, necessitou de muita capacidade administrativa para manter toda
essa população assim reunida servindo sob as ordens do Poder Central, em
Roma, que ditava as normas a serem cumpridas.
Para manter a paz em seu território e para poderem governar com
tranquilidade, os romanos criaram um sistema de controle de massas na sua
sociedade, popularmente conhecido como pão e circo.
Quanto ao Pão: Os
Imperadores cuidavam para que não faltassem alimentos no Império nem
atendimento aos indivíduos que ali viviam, não somente as classes
privilegiadas, mas também aos pobres. Iniciou dividindo a população em cinco
classes: Patrícios,
no topo da pirâmide social, descendentes das primeiras famílias que povoaram
Roma, possuidores de muita riqueza e escravos e eram os que ocupavam os cargos
públicos mais importantes; Plebeus, que
eram a maioria da sociedade e se constituíam em pequenos comerciantes, artesãos
e trabalhadores livres; Clientes, ou
a população pobre, que não tinha meios de subsistência, mas que eram sustentados pelos
patrícios, que também lhes davam apoio jurídico e, em contrapartida,
prestavam-lhes serviços e trabalhos militares; Escravos
vendidos como presas de guerra para patrícios e plebeus, para eles
trabalhando sem nenhum direito, apenas em troca de comida e roupas; e,
finalmente os Libertos,
que obtinham a liberdade comprando-a ou por concessão do dono, ou, ainda,
por abandono. Alguns chegavam a enriquecer, mas outros viviam na miséria,
quando não conseguiam trabalhar para seus donos: eram, geralmente, os
abandonados. Mas sendo estes últimos em número reduzido, não chegavam a ameaçar
a paz social.
Quanto ao Circo : Nos
tempos de Guerra , que foi mais frequente no início da dominação dos territórios
tidos como bárbaros, os Imperadores requisitavam os cidadãos
e todas as crueldades e degenerações eram permitidas nos campos de luta. Em
tempos de Paz era necessário manter contida a agressividade natural humana, que, pelo
convívio social entre tão diversificadas origens e costumes geralmente
descambava para a violência. E, para essa finalidade, foram criados os famosos “Circos”,
onde eram cometidas, ao vivo, as piores e mais obscenas crueldades. O
povo, presente, fazia então a catarse, ao
saírem dos espetáculos completamente arrasados pelo sentimento de culpa
da participação direta, cúmplices dos assassinatos que, na mais das
vezes, incentivavam e exigiam. A seu lado havia os “Estádios”, onde se
faziam jogos e corridas de cavalos, muito apreciados, havendo, assim
também, o lazer. Tudo era feito em um crescendo de violência
ofertada pelo Estado, mas chegou a um ponto em que nada resolveu. A catarse não
mais se fazia a começaram brigas e revoltas nas províncias. E com o
crescente número de escravos na Capital, muitas vezes maior do que o da
população livre e com o crescente anseio por liberdade, sentimento e direito
natural humano, tudo isso contribuiu para o início da derrocada do
império.
Assim é, pois : os valores imateriais, quer procedentes da
necessidade da satisfação do “ego” ou de impulsos, mas sempre como um
direito natural, sobrepõem-se nas sociedades humanas. Não basta ao
governante distribuir à população o célebre duo “pão e circo”, deve atender
também à elevação moral e espiritual dos cidadãos. E esse foi o erro dos
Romanos, ótimos administradores, mas pecadores na política de fazer evoluir as
populações sob sua responsabilidade. Procuraram impor sua religião
e somente conseguiram o ódio dos conquistados, ao passo que outros
Conquistadores, como Alexandre, o Grande, deixavam e até mesmo participavam dos
ritos religiosos dos conquistados, angariando sua simpatia e participatividade. No Egito, Alexandre participou de uma
cerimônia ritual dos sacerdotes para sagrá-lo Faraó, conquistando-lhes a pacificação e a colaboração, aceitando o seu general Ptolomeu como Faraó, o qual instalou ali uma longa dinastia, que se encerrou com a conquista romana, sendo Rainha a sua descendente Cleópatra. Na Palestina, ao
contrário, os romanos tentavam impor as imagens dos seus deuses nos templos
judaicos, sendo objeto de revoltas (e foram inúmeras), dominadas com crueldade e os castigos eram
terríveis, sendo a crucificação o mais doloroso e
humilhante.
Muitas elites governantes do nosso mundo atual praticam, ainda, esse mesmo erro
dos antigos romanos, de cuidar apenas do “pão e circo” e abandonar a educação e
a elevação moral e intelectual de seus cidadãos, combatendo as naturais
expansões de seu ente imaterial, traduzidas nas Religiões, nas Artes, na
Filosofia, na Justiça Social. Mas o fabuloso instrumento da Internet tem-se
encarregado de proporcionar a todos os indivíduos essa falta e, mais
ainda, proporcionar-lhes a condição de diálogo constante que Fromm, em
seu magnífico trabalho, indicou como uma das causas capazes de tornar apático o
cidadão diante de manipulações negativas das classes dominantes. E eis que, de
repente, estas são tomadas de surpresa. Oxalá entendam tudo isso e se
preparem para recuperar a confiança dos cidadãos descontentes, para
podermos dar início a uma nova era de confiança, prosperidade e harmonia entre
os povos.
Uma vez destituídas ou destruídas as formas de dominação das
elites ou as próprias elites, as atividades ou
conceitos imateriais dos indivíduos e grupos sociais, tais como Justiça,
Religião, Poesia, Arte ou Religião, ressurgem. Elas não estavam mortas, hibernavam enquanto não podiam aparecer e quando reaparecem, podem mesmo adotar uma
linguagem um pouco diversa - ela não será, contudo, efeito de influência dos antes dominadores, mas um encontro de ações mais adequadas a cada realidade humana que se apresenta a partir de então. Será, sempre,
uma modificação periférica e, não, de fundo doutrinário ou de
princípios.
Tudo assim analisado, não tenho as Religiões, a Poesia, a Arte, a
Filosofia, bem como a Justiça, a Educação, e
os anseios de liberdade, de igualdade e de fraternidade, como
apenas "satisfações fantasiosas" do ego, mas, sim, como elementos
ínsitos à racionalização humana, como componentes da sua parte imaterial
que se materializam através de obras e instituições. E por isso, se
as pessoas sofrem influência do meio social e dos fatos
decorrentes dessa convivência; e se, por estarem assim
reunidas em cidades cada vez maiores e em relacionamentos cada vez mais
complexos, daí resultando conflitos; se sofrem manipulação de
governantes nem sempre compromissados com a finalidade do bem público do
Estado, logo que possível (por uma reação direta sua ou não) esses valores ressaltam e gritam. São justamente aquelas
atividades de origem imaterial os meios de influir na modificação das "tendências
destruidoras na constituição psíquica do homem", que Freud identifica. São
elas que agem diretamente nos impulsos de
autopreservação individual, lapidando o cidadão e preparando-o para
sua adequação evolucionária social - são , pois, mais reais do que qualquer
outra atividade, porque compõem a natureza humana . E merecem
dos atores da atividade política grande respeito e o necessário incentivo
estatal.








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