domingo, 4 de agosto de 2013

CONTROLE SOCIAL: IMPULSOS INDIVIDUAIS/RESPOSTAS SOCIAIS

CONTROLE SOCIAL:

IMPULSOS INDIVIDUAIS/RESPOSTAS SOCIAIS

(Excerto de obra clássica de Erich Fromm)
 
  

"Realmente, o ser humano pode viver sob diversas condições, mas se estas forem  contrárias a sua natureza   humana, ele reage a elas, ou mudando as relações existentes, ou abdicando de suas faculdades humanas  condicionadas à razão, por assim dizer, distanciando-se, tornando-se apático." (Erich Fromm). 
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Erich_Fromm
  
Introdução   

                         Entendo ser oportuno colocar uma visão sóciopsicológica dos elementos endógenos e exógenos ao indivíduo e aos grupos sociais capazes de produzir alterações nos contextos da administração política de um Estado e  nas relações  sociais. E, para tanto, trouxe um texto extraído da obra de um dos maiores sociólogos-psicólogos de nossa atualidade, que nasceu em 1900 e permaneceu, até 1980, a nos fornecer a suas luzes. Seus posicionamentos são modernos e extraídos, pelo seu cérebro brilhante, das experiências muito importantes da Humanidade, no século  XX, que vieram a se refletir neste início do XXI, nas sociedades organizadas, do Ocidente e Oriente: a implantação da industrialização, com o alto consumo do petróleo, da massificação da sociedade, do consumismo,  o início e a queda do Comunismo como forma de Estado, bem como duas Guerras Mundiais. Trata-se de Erich Fromm, e é um excerto da sua obra intitulada “O Dogma de Cristo”, Tradução de Waltensir  Dutra, Editora Guanabara, 5a. Edição, pp. 17-24.

                              Os grifos e  os subtítulos foram acrescidos por  nós, como uma forma de enfatizar determinados aspectos  do conteúdo do texto em causa – no livro, o texto é corrido. O subtítulo, no livro, é : “A Função Sociopsicológica da Religião” e comporta , ali, uma exposição muito extensa, da qual extraí, para essa postagem,  apenas a parte inicial, que interessa ao estudo que venho mantendo juntamente com vocês, sobre  os fatores de modificação  das atividades do cidadão, individual ou em grupo, frente às elites políticas, a partir dos movimentos , no  Brasil, de Junho próximo passado e a origem da violência no ser humano. Sendo assim, coloquei um título diverso daquele  para este trabalho, vez que inclui uma parte de minha autoria, ao final, intitulada “Minhas Conclusões”.

                              De início devo afirmar que concordo com as opiniões científicas de Erich Fromm, de cujo intelecto privilegiado  sou admiradora e leitora  convicta de suas diversas obras, onde muito tenho aprendido para levar a efeito os meus trabalhos sobre sociedade  e indivíduo, a par de outros autores, brasileiros e estrangeiros, também muito apreciados.

                              Este trabalho está assim dividido:
 
Título: Controle Social : Impulsos Individuais /Respostas Sociais
Subtítulos: Introdução; Conceito de Psicanálise e Impulso do Sexo e do Ego; O Princípio do Prazer; Estrutura Emocional do Indivíduo face à  Sociedade; Minhas Conclusões .
                                        
                                                       
 
 

                                          ERICH FROMM                             


Conceito de Psicanálise e Impulso do Sexo e do Ego

                        “A PSICANÁLISE é a psicologia das tendências ou impulsos. Vê o comportamento humano como condicionado e definido por impulsos emocionais, que interpreta como resultado de certos impulsos psicologicamente enraizados, e que não são objeto da observação imediata.

                         Seguindo, desde o princípio, a classificação popular de impulsos de fome e impulsos do amor, Freud distingue entre o ego, ou a autopreservação, e os impulsos sexuais. Devido ao caráter libidinoso dos impulsos de autopreservação do ego, e devido à significação especial das tendências destruidoras na constituição psíquica do homem, Freud sugeriu uma divisão diferente, levando em conta o contraste entre os impulsos mantenedores de vida e os impulsos destruidores. Essa classificação não requer, aqui, maiores comentários. O importante é o reconhecimento de ceras qualidades do impulso sexual que o distinguem dos impulsos do ego.

                         Os impulsos do sexo não são imperativos, ou seja, é possível deixar suas exigências insatisfeitas sem ameaçar com  isso a própria vida, o que  não  seria o caso com as exigências da fome, da sede e da necessidade de dormir. Além disso, os impulsos sexuais, e até um ponto não-insignificante, podem ser satisfeitos pela imaginação e com o próprio corpo. São, portanto, muito mais independentes da realidade externa do que os impulsos do ego.  Intimamente relacionadas com  este estão a transferência fácil e a capacidade de intercâmbio entre os impulsos componentes da sexualidade. A frustação de um impulso libidinal pode ser compensada, com relativa facilidade, pela substituição por outro impulso cuja satisfação é possível. Tais flexibilidade e versatilidade dos impulsos sexuais são a base da extraordinária variabilidade da estrutura psíquica, e nisso está, também, a possibilidade de as experiências individuais afetarem, de forma tão definida e marca, a estrutura da libido.

O Princípio do Prazer

                        Freud vê o princípio do prazer, modificado pelo princípio da realidade como o regulador do aparato psíquico. Diz ele:                                       

 Vamos, portanto, voltar nossa atenção para uma indagação menos ambiciosa – a de revelarem ou não os homens, pelo seu comportamento, os objetivos e intenções de suas vidas. O que pretendem da vida e o que desejam realizar nela? A resposta não deixa dúvidas. Procuram a felicidade, querem tornar-se felizes e continuar felizes. Esse objetivo tem dois aspectos, uma finalidade positiva e outra negativa. Visa, sob um aspecto, à ausência da dor e de coisas desagradáveis, e sob outro, à experiência de fortes sensações de prazer. Em seu sentido limitado, a palavra “FELICIDADE” SE RELACIONA APENAS COM OS SENTIMENTOS DE PRAZER. De acordo com essa dicotomia de finalidade, a atividade do homem se desenvolve em duas direções, segundo busque realizar – de forma principal ou mesmo exclusiva – um ou outro desses objetivos. (In “Civilization and its Discontents” , em português “Civilização e seus Descontentamentos”, Standard Edition, XXI, p.76)
                                                                     
                                                                   
Estrutura Emocional do Indivíduo face à  Sociedade

                        O indivíduo quer experimentar — em dadas circunstâncias – uma satisfação máxima da libido e um mínimo de dor. Para evitar esta, pode aceitar as transformações ou mesmo frustrações dos diferentes componentes dos impulsos sexuais. Uma renúncia semelhante aos impulsos do ego, porém, é impossível.

                         As peculiaridades da estrutura emocional do indivíduo dependem de sua constituição psíquica e, primordialmente, de suas experiências na infância. A realidade externa, que lhe assegura a satisfação de certos impulsos, mas que obriga à renúncia de outros, é definida pela situação social existente, e na qual vive. Essa realidade social inclui a realidade mais ampla que abarca todos os membros da sociedade e a realidade limitada das classes sociais distintas.

                        A sociedade tem uma função dupla na situação psíquica do indivíduo, frustrando-a e satisfazendo-a. As pessoas dificilmente renunciam aos impulsos por verem o perigo que resultará de sua satisfação. Geralmente, a sociedade impõe tais renúncias:

                        - primeiro, há as proibições estabelecidas à base do reconhecimento social de um perigo real para o próprio indivíduo,  perigo que não percebe imediatamente e que está ligado à satisfação do impulso;

                        - segundo, há a repressão e frustração de impulsos cuja satisfação provocaria danos não no indivíduo, mas ao grupo; e,

                        - finalmente, as renúncias feitas não no interesse do grupo, mas apenas de uma classe dominante.

                        A função "satisfatória" da sociedade não é menos clara do que seu papel frustrativo. O indivíduo só a aceita porque, através de sua ajuda, pode, até certo ponto, esperar conseguir satisfação de evitar sofrimento, principalmente em relação à satisfação das necessidades elementares de preservação, e, em segundo lugar, em relação à satisfação das necessidades libidinosas.

                        O que dissemos não levou em conta as características específicas de todas as sociedades conhecidas historicamente. Os membros de uma sociedade não se consultam, na realidade para determinar o que esta pode permitir e o que deve proibir. Enquanto as forças produtoras da economia não são suficientes para proporcionar a todos a satisfação adequada de suas necessidades materiais e culturais (ou seja, mais do que a proteção contra o perigo externo e a satisfação das necessidades elementares do ego), a classe social mais poderosa procurará obter o máximo de satisfação de suas necessidades, primeiro. O grau de satisfação que proporciona aos que são governados por ela depende do nível das possibilidades econômicas disponíveis e também do fato de que um mínimo de satisfação deve ser proporcionado aos que são governados, de modo que possam continuar a funcionar como membros cooperantes da sociedade.

                        A estabilidade social depende relativamente pouco do uso da força externa. Depende, em sua maior parte, de se encontrarem os homens numa condição psíquica que os prenda intimamente a uma situação social existente. Para isso, como já observamos, é necessário um mínimo de satisfação das necessidades naturais e culturais instintivas. (grifos nossos)

(............................)

                        Vamos resumir o que dissemos até agora. O homem por um máximo prazer; a realidade social o obriga a renunciar  a muitos dos impulsos, e a sociedade procura recompensar o indivíduo por essas renúncias, proporcionando-lhe outras  satisfações inofensivas para ela, ou seja, para as classes dominantes.

                        Tais satisfações podem, em essência, ser obtidas pela imaginação, especialmente pelas fantasias coletivas. Têm uma  função importante na realidade social. Na medida em que a sociedade não permite uma satisfação real, as satisfações da imaginação servem como substitutivo e se tornam um apoio poderoso da estabilidade social. Quanto maiores as renúncias que os homens que os homens suportam na realidade tanto mais forte deve ser o desejo de compensação. As satisfações da imaginação têm a dupla função característica de todo narcótico: agem tanto como anódino quanto como repressão de uma transformação ativa da realidade. As satisfações da imaginação ou fantasia têm uma vantagem essencial sobre os devaneios individuais: em virtude de sua universalidade, são percebidas pela mente consciente como se reais fossem. A ilusão partilhada por todos se torna uma realidade. A mais velha dessas satisfações fantasiosas coletivas é a religião. Com o desenvolvimento progressivo da sociedade, as fantasias se tornam mais complicadas e racionalizadas. A própria religião se torna distinta, e a seu lado surgem a poesia, a arte, a filosofia, como expressões de fantasias coletivas.” 

                                                         
 
  

                                          Minhas Conclusões

 
                              Erich Fromm foi um sociólogo que se dedicou ao estudo da psicologia e elaborou  teorias  e estudos em que analisou a inter-relação entre o comportamento  individual do ser humano e deste quando em sociedade. Neste texto apresenta  características da psique humana em confronto  com  a organização social, destacando a sobreposição das classes sociais, com a elite dominante  determinando os rumos a serem tomados. E elementos capazes de manter as massas passivas e submissas às vontades das elites dominantes, que se aproveitam, para tanto,  de elementos imateriais idealizados pelas  pessoas, que chama de “satisfações da  imaginação” ou “fantasias coletivas”, através das quais  elas substituem a sua “satisfação real” que a sociedade não lhes permite (apontando, dentre elas, o fervor religioso, a poesia, a arte, a filosofia) .

                               Afasto-me de qualquer crítica ou comentário do genial sociólogo e psicólogo quanto à classificação que dá a atividades religiosas, de poesia, de arte e de filosofia, como “fantasias coletivas”. Nesse ponto entendo, em um contexto neoplatônico acrescido de alguns detalhes por mim, conforme exponho no meu livro sobre a “Teoria da Restituição”, que o mundo real é o Mundo das Ideias e o irreal é o Mundo dos Sentidos. Há um paradigma de há muito conhecido, de que os próprios possuidores dos conceitos que os expõem morrem, perecem, mas suas ideias se forem boas, são aceitas por grande porcentagem de pessoas e permanecem para sempre enquanto durar a espécie. Exemplos dessas ideias: o uso da roda, e as diversas religiões que pregam a paz e o amor ao próximo, apesar de há muito terem sido mortos os grandes homens que as elaboraram. Aliás, nem se sabe o nome ou quando a roda foi inventada. Contudo, no livro, o Autor continua em sua demonstração, que contém muito mais pensamentos do que os ora trazidos ao seu conhecimento - recomendo a leitura integral da obra, que é muito interessante e em linguagem direta e  acessível aos leigos no ramo da Psicologia.

                                    A força de uma ideia é algo tão concreto que não pode ser afastado por qualquer outra força neste mundo, a não ser que seja outra ideia, melhor do que aquela.  Trago três exemplos conhecidos da maioria,  dois em termos laicos, sobre a abolição da escravatura e, outro, religioso, sobre o cristianismo:

                                   (1º.) abolição da escravatura:

                                                  a) no Antigo Império Romano: como em todos os tempos anteriores, para os trabalhos braçais necessários às populações, eram feitos escravos, indistintamente, dentre aqueles povos submetidos pelo poder das armas. Um escravo, Spartacus, com a ideia da liberdade, conseguiu um levante extraordinário que estremeceu os alicerces de Roma. Foi uma luta de armas intensa, de vários anos, para que fosse debelado. O escravo foi preso e crucificado: morreu o idealizador, mas a sua ideia permaneceu e, daí para frente, muitas revoltas dos povos conquistados foram levadas a efeito, até que, com essas revoltas, foi havendo maior força aos revoltosos, inspirados nos que os antecederam e, a partir daquele primeiro levante, houve a queda do grande império. 

                                                b) no Brasil Império: a escravatura negra existia, era necessária para manter a economia da máquina estatal que  rodava principalmente  sobre o plantio, extração e manufatura do açúcar de cana. Não havia, no Brasil,  ainda  a máquina nem o contrato de trabalho, eis que a elite mandante  entendia que haveria grande gasto e desperdício dos bens estatais se fossem implementados. A ideia da  abolição se iniciou com poucas pessoas a defendê-la e outros tantos vieram a praça pública para expô-la. Nesse trabalho se destacaram vários brilhantes poetas brasileiros, dentre os quais destaco para este trabalho o valoroso baiano Castro Alves. Contam os livros de história que se tratava de uma bela e carismática figura de homem, com uma voz forte e bonita, que ia para as praças e ruas, recitando seus poemas, que levavam as pessoas ao delírio e, assim, conseguia inúmeros adeptos para a causa. Destaco aqui o famoso 2º Verso da  VI Estrofe, do seu famoso poema “O Navio Negreiro”, que utiliza na sua métrica o sistema onomatopaico – ao serem pronunciadas as sílabas da segunda frase, ouve-se perfeitamente o barulho do farfalhar do pano da bandeira:                                                                                  

Auriverde pendão da minha terra,                                                             
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do Sol encerra
E as promessas divinas da esperança ...                     
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servir a um povo de mortalha ...                                             
                                                     

                            (2º.) a Democracia:

                             A ideia lançada por grandes sábios e governantes da antiga Atenas (dentre eles Sólon e Péricles), do governo exercido pelo povo e para o povo, que foi abafada depois da queda da Grande Cidade pela conquista por  Esparta, e mortos os idealizadores e executores, ressurgiu, mais forte e mais elaborada a partir do século XIX da Nova Era do Mundo Ocidental, sendo seguida até os dias de hoje, em todas as Nações mais desenvolvidas da Terra, inclusive no Brasil. Resistiu à passagem de conquistadores e do tempo.

                            (3º.) Religião cristã:

                          O grande Mestre Jesus, em uma longínqua província asiática do Império Romano, trouxe uma ideia de evolução humana através  do amor ao próximo, com um novo mandamento central aos seus seguidores: não só fazer ao próximo o bem , mas  fazer a ele o que desejasse que fizessem a si próprios. E foi às praças, aos templos, e criticou as ideias antigas e as práticas malfeitas a partir de más interpretações de textos considerados sagrados, tanto para o seu povo, sob o jugo romano, quanto para  a própria ideologia   da mítica romana da existência de inúmeros deuses.    Todos sabem que  Jesus foi crucificado, pois o Império e o Sinédrio pensaram que, assim, com tal castigo terrível e ao mesmo tempo humilhante,  estaria sanada qualquer influência sua. O homem morreu, mas, algum tempo depois (eis que na História da Terra alguns séculos não são muita coisa), o próprio Império Romano que o crucificara adotou suas ideias, iniciando-se, daí, a maior religião já existente, perdurando até os dias de hoje, com 1/3 dos habitantes da Terra a segui-la.  

                         Entendo, sim, com o magistral Fromm, que existe a  “satisfação fantasiosa coletiva”  para  substituir provisoriamente  a renúncia a um impulso humano ou de uma coletividade em face da imposição de  uma elite dominante, ou por outro motivo. Mas discordo  dele ao incluir, nelas, a Religião, a Poesia, a Arte, a Filosofia. O que existe, nesse caso, como ele mesmo explica, é a ocorrência de complexidades que  levam o ser humano a elaborações conceituais mais racionais a respeito dos seus dogmas e princípios. Por vezes, até, o abandono  de uma religião, ou de uma forma poética, ou de arte e filosofia, por outras, conforme a evolução dos acontecimentos, não só sociais, mas também de descobertas científicas, como nos dias de hoje, faz parte do processo interior do indivíduo à procura do divino em uma visão mais concernente com sua evolução interior. Mas esses entes imateriais, assim como a Justiça, a Liberdade e o Amor são conceitos eternos, inseridos na própria conformação – imaterial – do ser humano.
 
                                                                                    
         

                          As elites dominantes e a forma de dominação é que  desaparecem e se transformam. Talvez vocês me contestem, a essa altura, alegando que as elites dominantes sempre existiram e ainda existem, o que modifica é sua adaptação aos tempos e às novas formas  de tecnologia e  de reunião social. Mas me contraponho a esse entendimento, dizendo que:

                                            a) o fato de serem, talvez, eternas, não retira a eternidade das instituições imateriais  acima indicadas;

                                            b) a sua modificação ou extinção se dá pela evolução social, que advém das descobertas científicas e da própria modificação de seu ser imaterial, a qual  se dá justamente através da Filosofia e da Religião; e por outro lado, estas , na maioria das vezes, antecipam-se  às modificações daquela, salvo em casos de domínio abrupto de uma sociedade superior a outra; e

                                         c) interpretando esse embate entre elites e dominados, a Religião, a Filosofia, a Arte, e a Poesia, como também a Sátira, chegam a transformar situações  existentes ou que venham a ocorrer, colocando a nu, para cada indivíduo, determinados aspectos ainda não observados.  

                            Não se pode, por outro lado,  dizer que a  dominação das elites políticas  é “satisfação fantasiosa coletiva”, para  as massas justificarem sua insatisfação com o não atendimento a suas necessidades e direitos naturais nas organizações sociais.  Pois  esse fato não é decorrente de uma  construção racional do pensamento humano - mas, isto sim, um efeito das relações  concretas  entre os atores políticos e os cidadãos de um Estado.  Por outro lado, essa dominação pode se dar de formas não perceptíveis materialmente, eis que  se utilizam  , muitas vezes, da manipulação dos desejos e impulsos do indivíduo, conforme nos demonstra Fromm, acima colocado.  Outras vezes  há percepção flagrante, através da observação de instrumentos que constroem ou aproveitam para desviar a atenção dos dominados, ao mesmo tempo satisfazendo seus impulsos. Neste último caso cita-se o exemplo tradicional do Império Romano: muito extenso e constituído de muitos povos de costumes, línguas e raças diversificadas, necessitou de muita capacidade administrativa para manter toda essa população  assim reunida servindo sob as ordens do Poder Central, em Roma, que ditava as normas a serem cumpridas.  

                         Para manter  a paz em seu território e para poderem governar com tranquilidade, os romanos criaram um sistema de controle de massas na sua sociedade, popularmente conhecido como pão e circo. 

                                                   
                            Quanto ao Pão: Os Imperadores cuidavam para que  não faltassem alimentos no Império nem atendimento aos indivíduos que ali viviam, não somente as classes privilegiadas, mas também aos pobres. Iniciou dividindo a população em cinco classes: Patrícios, no topo da pirâmide social, descendentes das primeiras famílias que povoaram Roma, possuidores de muita riqueza e escravos e eram os que ocupavam os cargos públicos mais importantes; Plebeus, que eram a maioria da sociedade e se constituíam em pequenos comerciantes, artesãos e trabalhadores livres; Clientes,  ou a população pobre, que não tinha meios de subsistência, mas que eram sustentados pelos patrícios, que também lhes davam apoio jurídico e, em contrapartida,  prestavam-lhes serviços e trabalhos militares; Escravos vendidos como presas de guerra para  patrícios e plebeus, para eles trabalhando sem nenhum direito, apenas em troca de comida e roupas; e, finalmente os Libertos, que obtinham a liberdade comprando-a ou  por concessão do dono, ou, ainda, por abandono. Alguns chegavam a enriquecer, mas outros viviam na miséria, quando não conseguiam trabalhar para seus donos: eram, geralmente, os abandonados. Mas sendo estes últimos em número reduzido, não chegavam a ameaçar a paz social.
 
                                                        
                                 

             Quanto ao Circo : Nos tempos de Guerra , que foi mais frequente no início da dominação dos territórios  tidos como  bárbaros, os Imperadores  requisitavam os  cidadãos e todas as crueldades e degenerações eram permitidas nos campos de luta. Em tempos de Paz era necessário manter  contida a agressividade natural humana, que, pelo convívio social entre tão diversificadas origens  e costumes geralmente descambava para  a violência. E, para essa finalidade, foram criados  os famosos “Circos”,  onde  eram cometidas, ao vivo, as piores e mais obscenas crueldades. O povo, presente, fazia então a catarse, ao saírem dos espetáculos completamente arrasados  pelo sentimento de culpa da participação  direta, cúmplices dos assassinatos  que, na mais das vezes, incentivavam e  exigiam. A seu lado havia os “Estádios”, onde se faziam jogos e  corridas de cavalos, muito apreciados, havendo, assim também, o lazer. Tudo era feito em um crescendo de  violência  ofertada pelo Estado, mas chegou a um ponto em que nada resolveu. A catarse não mais se fazia a começaram brigas  e revoltas nas províncias. E com o crescente número de escravos na Capital, muitas vezes maior do que o da população livre e com o crescente anseio  por liberdade, sentimento e direito natural humano,  tudo isso contribuiu para o início da  derrocada do império.

                            Assim é, pois : os valores imateriais, quer procedentes  da necessidade da  satisfação do “ego” ou de impulsos, mas sempre como um direito natural, sobrepõem-se nas sociedades humanas.  Não basta ao governante distribuir à população o célebre duo “pão e circo”, deve atender também à elevação moral e espiritual dos cidadãos. E esse foi o erro dos Romanos, ótimos administradores, mas pecadores na política de fazer evoluir as populações sob sua responsabilidade.  Procuraram impor  sua religião e somente conseguiram o ódio dos conquistados, ao passo que outros Conquistadores, como Alexandre, o Grande, deixavam e até mesmo participavam dos ritos religiosos dos conquistados, angariando sua simpatia e participatividade. No Egito, Alexandre  participou de uma cerimônia ritual dos sacerdotes para sagrá-lo Faraó, conquistando-lhes  a pacificação e a colaboração, aceitando o seu general Ptolomeu como Faraó, o qual instalou ali uma longa  dinastia, que se encerrou com a conquista romana, sendo Rainha a sua descendente Cleópatra.  Na Palestina, ao contrário, os romanos tentavam impor as imagens dos seus deuses nos templos judaicos, sendo objeto de  revoltas (e foram inúmeras), dominadas com crueldade e os castigos eram terríveis, sendo a crucificação o mais doloroso e humilhante.   
                                                                             
                          Muitas elites governantes do nosso mundo atual praticam, ainda, esse mesmo erro dos antigos romanos, de cuidar apenas do “pão e circo” e abandonar a educação e a elevação moral e intelectual de seus cidadãos, combatendo  as naturais expansões de seu ente imaterial, traduzidas nas Religiões, nas Artes, na Filosofia, na Justiça Social. Mas o fabuloso instrumento da Internet tem-se encarregado de proporcionar  a todos os indivíduos essa falta e, mais ainda, proporcionar-lhes a condição de diálogo constante  que Fromm, em seu magnífico trabalho, indicou como uma das causas capazes de tornar apático o cidadão diante de manipulações negativas das classes dominantes. E eis que, de repente, estas são tomadas de surpresa. Oxalá entendam tudo isso e se preparem para  recuperar a confiança dos cidadãos descontentes, para podermos dar início a uma nova era de confiança, prosperidade e harmonia entre os povos.

 
                           Quando, porém, os atores políticos não têm a sensibilidade de atender aos reclamos massivos das ruas, geralmente  não conseguem  manter-se muito tempo em seus altos cargos - isso é uma constatação que se pode tirar da simples análise da História Humana. Uma  vez destituídas ou  destruídas  as formas de dominação das elites ou as próprias elites, logo se retomam as atividades ou conceitos imateriais proibidos ou fora do alcance  dos indivíduos e grupos sociais,  tais como Justiça, Religião, Poesia, Arte ou Religião. Esse foi o caso da queda do Comunismo na União Soviética, na segunda metade do Século passado : praticamente do dia para a noite reapareceram todas as cerimônias religiosas , acompanhadas pela população em peso, justamente quando na véspera os atores políticos e as elites governantes declaravam que "Deus está morto!". De tudo isso se conclui que "fantasiosas" são as ideologias  que pretendem abafar esses valores, ínsitos no contexto individual e social - conseguem apenas modificações periféricas, que aos poucos se desgastam e reaparecem  esses princípios humanos, direitos naturais. 

                          Uma  vez destituídas ou  destruídas  as formas de dominação das elites ou as próprias elites, as atividades ou conceitos imateriais dos indivíduos e grupos sociais,  tais como Justiça, Religião, Poesia, Arte ou Religião, ressurgem. Elas não estavam mortas, hibernavam enquanto não podiam aparecer e quando reaparecem, podem mesmo adotar uma  linguagem um pouco diversa - ela não será, contudo, efeito de influência dos antes dominadores, mas um encontro de  ações  mais adequadas a  cada realidade humana que se apresenta a partir de então. Será, sempre, uma modificação periférica e, não, de fundo doutrinário ou  de princípios. 

                            Tudo assim analisado, não tenho as Religiões, a Poesia, a Arte, a Filosofia, bem  como a Justiça,  a Educação,  e os anseios de liberdade, de  igualdade e de fraternidade, como  apenas "satisfações fantasiosas" do ego, mas, sim, como elementos  ínsitos à racionalização humana, como componentes da sua  parte imaterial que se materializam através de obras e instituições. E  por isso, se  as pessoas sofrem influência do meio social e dos   fatos decorrentes dessa convivência; e se,   por estarem assim reunidas em cidades cada vez maiores e em relacionamentos  cada vez mais complexos,  daí resultando  conflitos; se sofrem  manipulação de governantes nem sempre  compromissados com a finalidade do bem público do Estado, logo que possível (por uma reação direta sua ou não) esses valores ressaltam e gritam. São justamente  aquelas  atividades de origem imaterial  os  meios de influir na modificação das "tendências destruidoras na constituição psíquica do homem", que Freud identifica. São elas que  agem  diretamente nos impulsos  de  autopreservação individual, lapidando o cidadão e  preparando-o para sua adequação evolucionária social - são , pois, mais reais do que qualquer outra atividade, porque compõem a natureza humana .  E merecem dos atores da atividade política grande respeito e o necessário incentivo estatal.                  

                           Como o homem e essas instituições com fundamentos imateriais, mas que se materializam através de seus pregadores e seguidores, estão em constante agregação com a sociedade, é óbvio que  também podem influir  em modificações da mesma, fazendo-os observar particularidades não notadas por quem  está enredado nos meandros da efervescência social. E essa influência se opera  ora  apoiando, ora apontando caminhos pacíficos de modificação do "status quo" que tornem os cidadãos infelizes e descontentes com a condução da política pelas elites dominantes em pessoas atuantes  capazes de modificar essa situação em seu proveito e de todos os demais.                                                      
 

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