terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Salvemos a sociedade, eduquemos os nossos jovens

SALVEMOS A SOCIEDADE, EDUQUEMOS OS NOSSOS JOVENS

 
 
 
(...) E estamos aqui há apenas 1 milhão de anos, nós, a primeira espécie que projetou os meios para a sua autodestruição. Somos raros e preciosos porque estamos vivos, porque podemos pensar dentro de nossas possibilidades. Temos o privilégio de influenciar e talvez controlar o nosso futuro. Acredito que temos a obrigação de lutar pela vida na Terra — não apenas por nós mesmos, mas por todos aqueles, humanos e de outras espécies, que vieram antes de nós e a quem devemos favores, e por todos aqueles que, se formos inteligentes, virão depois de nós. Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que  proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante.

                                    Carl Sagam

              
                                                 

                  Não somente os cientistas devem observar a natureza para deduzir  empiricamente  as leis  que regem  a  realidade em que vivemos. Todos nós, tanto para uma sobrevivência  pessoal, quanto social,   temos necessidade de desenvolver uma estratégia de vida  em consonância com   os princípios  adequados à evolução da espécie e, nesse sentido, devemos observar  o que normalmente ocorre  à nossa volta, para nos comportarmos  de maneira  a obter os melhores resultados, pois, queiramos ou não,  estamos integrados a um meio ambiente do qual somos partes e, não, elementos superiores e  separados que consigam  existir sem a cooperação recíproca.
 
                  Num sentido biológico ou sociológico, há de se recordar que um dos aspectos principais de uma sociedade é a existência da  proteção  das novas gerações (sobreposição das gerações),via parental. E esse aspecto particular é observado naturalmente em todos os mamíferos superiores  que conseguiram sobreviver aos grandes desastres ambientais de nosso planeta : chegados aqui antes dos humanos, praticam, há milênios, efetivamente, a proteção  integral  dos seus componentes na sua  infância e  juventude,  com uma responsabilidade  compartilhada por todos os seus membros, fato que  ainda não conseguimos entender plenamente  e para o qual  só há pouco tempo, a partir da “Declaração Universal dos Direitos das Crianças”  , em 1959, tivemos nossa atenção  direcionada.

                  São dois os exemplos mais conhecidos. Nas manadas dos elefantes, todos os filhotes são colocados, sempre, em um local central, cercados por todas as fêmeas adultas, que os protegem com amor maternal, a ponto de nossos  estudiosos  as cognominarem de “tias”. Os golfinhos  têm um comportamento social muito desenvolvido, também : no momento do parto, a fêmea se afasta do grupo e é acompanhada por outra, que faz as vezes de “parteira”. O cuidado parental é enorme: os pais estão sempre perto do filhote, até este  ficar adulto  :  quando um tubarão se aproxima  dele, o pai vai em frente e luta com o predador, enquanto a mãe  fica resguardando o pequeno. Os cientistas têm estudado várias espécies desse maravilhoso cetáceo e  puderam  verificar , em vários casos  , que componentes da sociedade deles assumem os cuidados parentais  de filhotes de outros elementos do grupo, o que indica  o forte sentimento  da necessidade  de preservar as gerações futuras.
 
 

                    O ser humano está muito atrasado em relação às leis naturais que imperam a respeito da noção  da célula-mater  da sua espécie. A família, em nossa sociedade moderna, ainda  é  compreendida  por elementos  materiais  do ser , que se resumem nos laços de sangue. O instituto da “adoção”, que na antiguidade foi muito utilizado pelos romanos, somente a partir do século XX  é que vem se delineando como uma forma de integração de elementos alheios  ao corpo  familiar sanguíneo, e, assim mesmo, ainda não encontra guarida na maioria dos países.

                  A tendência de uma sociedade realmente evoluída é estabelecer uma relação parental  difusa, em que os vínculos se formem a nível  geral, sem que se faça uma escolha por este ou aquele indivíduo, ou que se tomem em consideração apenas  os nascidos  com vínculos de sangue.  Não é, por outro lado, uma política nacional acertada a da  separação da criança, em determinada etapa de sua vida, do núcleo familiar e sua colocação em instituições  estatais  ou particulares para que ali, longe do convívio sentimental, tão necessário à formação de uma psique  sadia , adquira  características  uniformizadas, conforme as desejem, em determinado momento, os detentores do poder    algumas civilizações procuraram  fazer isso, como Esparta, na Grécia Antiga e a União Soviética, mais recentemente, sob o regime marxista, mas , em ambos os casos, essa técnica de desenvolvimento social pereceu  , não conseguindo  chegar ao “homem perfeito” ou ao “super homem”, conforme prometiam as filosofias que as fizeram enveredar por essa opção. 

                  Está havendo uma desagregação da  família em um conceito tradicional, que , segundo uma visão hegeliana, trata-se de uma pessoa jurídica, sociedade conjugal  universal e durável, com laços afetivos entre seus membros,  que se inicia   com a realização de um casamento   entre duas pessoas de sexos distintos , formando-se  uma existência exterior, traduzida  na propriedade de bens e cuidados para sua manutenção e um aspecto interior, que é a educação sentimental, moral e cultural das crianças , até  a sua natural dissolução (pela morte  dos pais ou pela maioridade  dos filhos que vão constituir outras famílias). Está ocorrendo, em um processo generalizado, a  sua desconstituição formal ou legal (separação, divórcio), com a multiplicação de diversos núcleos familiares simultâneos, distintos e com correntes entre si.


                    Sobre a importância dos aspectos sentimentais da família,   Hegel  faz uma análise profunda que se inicia assim :
 
                                                                       A FAMÍLIA. Na qualidade de  substancialidade imediata do espírito, a família se determina pelo sentido unitário, pelo amor, de forma que a disposição de espírito correspondente é a consciência de ter sua individualidade  nessa unidade que é a essência em si e para si, e  de não   haver existência nela como uma pessoa por si, mas, sim , como seu membro.

                                                                  O direito que o indivíduo possui em razão da unidade familiar e que é, primeiramente, sua vida nessa unidade, não toma a forma de um direito como momento abstrato da individualidade definida, da forma que ocorre quando a família entra em decomposição e aqueles que eram seus membros se transformam psicologicamente e  realmente em pessoas independentes. Aquilo  que eles  encontravam na família e que era apenas um momento constitutivo de um todo, eles continuarão ainda a receber no isolamento, quer  dizer, apenas nos aspectos exteriores (recursos financeiros, alimentação, despesas com educação, etc.).[Tradução livre . Páginas 198 e 199, do “Principes de la Philosophie du Droit – La moralité objective”, Éditions Gallimard, 1940,  traduzido do alemão para o francês por André Kaan e prefaciado por Jean Hyppolite]

 
                  O aspecto afetivo, ou sentimento de  agregação de um indivíduo  , é um elemento  essencial , natural ou adquirido, para que  se mantenha coeso o grupo a que pertence. No ser humano, ele é natural e  primordial à sua evolução como espécie. O seu exercício, contudo,  necessita de um  aprendizado, quer para unir-se  aos demais integrantes do corpo social, quer para  aceitá-los.
                                             
                  A mentalidade relativista que tem imperado em nossa sociedade ocidental é, de todo, prejudicial à sanidade psicológica humana  : o homem, fechando-se cada vez mais em si mesmo, perde a noção do social e, contrariando sua natureza, vive com conceitos particulares sobre os assuntos mais imediatos de interesse de sua subsistência, ignorando que o destino do todo social é essencialmente importante , até mesmo onde mantém o seu status quo. O mesmo ocorre  nos conglomerados empresariais : em razão  do grande dimensionamento do mercado em que operam, passam a confundir com interesse público o seu interesse particular, primordial, visando ou ao lucro (capitalismo) ou à manutenção do poderio decisório e supremacia de classes ( no comunismo e regimes autoritários). Um equilíbrio há de ser encontrado, notadamente no que tange à formação das crianças, frente  a essa situação, que observam e de que participam.
 
                 A família é o elemento primário para  a transmissão, às novas gerações, dos princípios  de uma sadia  convivência em sociedade , indicando , aos seus  componentes , normas de moral e ética  a serem observadas para o bem estar  dos seus próximos — entendidos no sentido de  humanos e do meio ambiente em seu entorno. Quando ela falta ou falha, nessa finalidade, o responsável mediato, que é todo o corpo social, deve intervir no sentido de recolocar esse aspecto aos menores envolvidos, em um momento tão  essencial de sua existência e que se torna ruim pela sua desproteção familiar — pois, o que , para um adulto, é um fato superável, para uma criança ou para  um adolescente, é uma  desgraça  incomensurável, capaz de abalar os alicerces de sua personalidade. Quando essa situação desagregadora atinge níveis estatísticos muito elevados, como na atualidade, impõe-se uma tomada de posição positiva e real: não bastam disposições legais e filosofias humanitárias, é necessário que sejam levadas a efeito políticas e atividades concretas no âmbito público e privado, para solucionar o problema.

                                                    

                 Uma lei que não se efetiva como uma  ação concreta  de governo  se torna letra morta  e traz intranquilidade à unidade nacional. Uma filosofia  que não assume os seus princípios  mediante atitudes firmes no sentido de trazê-la à realidade social é apenas  uma forma que intelectuais encontram  de passar o tempo ,  elaborando  pensamentos  sem finalidades.

                  Estamos, no Brasil, em um momento de tomada de iniciativas concretas para a melhoria  psíquica e cultural da nova geração. Vários países vêm tomando essa iniciativa e já se vê algum sucesso. Deve-se entender que o consumo excessivo de drogas proibidas e de bebidas alcoólicas, pela nossa juventude mundial, é uma fuga coletiva de um mundo adulto que demonstra seu desprezo por valores  da espécie como um conjunto em evolução e a procura de compensar  a falta de perspectivas de melhoras nesse sentido. Incumbe a nós, adultos, tomar a iniciativa e colocar em obra toda a teoria  que nos  concedem as leis internacionais e nacionais sobre a  criança e o adolescente.

 

(Texto extraído do livro “Delinquência Juvenil – Infraestrutura da Criminalidade Adulta”, de Lia Pantoja Milhomens, Ed. In-Fólio, 2011)

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